O pintor de letreiros de R.K. Narayan (Editora Guarda-Chuva, Rio de Janeiro 2011)


Ao partir,o táxi de Gaffur realiza três deslocamentos com um só movimento.

O primeiro, mais evidente, é o de conduzir Daisy e suas companheiras a novas campanhas, em sua incansável militância pelo controle do crescimento demográfico na Índia.

O segundo deslocamento que a partida daquele táxi realiza diz respeito a Raman. Uma mudança não espacial, já que ele não viaja no carro. Porémele muda radicalmente de lugar.Com o afastamento do carro, Raman encontra-se numa diversa e inédita situação.

O terceiro deslocamento concerne o leitor: ao virar a última página, ao fechar e pousar o livro, cada um de nós se deparanão só com o fim de uma narrativa, mas também com o retorno a si. Durante a leitura éramos outro (ou vários outros). Estatalvez seja a dádiva maior da literatura: possibilitar que viajemos no tempo e no espaçosem sair do lugar eassim nos afastar de nós mesmos, sem qualquer risco de perda de identidade. Concluída a leitura, oencontro renovadocom si mesmo e com a própria história é assegurado a cada leitor.

 

Primeiro Deslocamento.

Por mais tortuosa que seja a estrada que conduzirá as passageiras do táxiaté Nagpur, a partida do carro opera um deslocamento linear no que diz respeito a Daisy. Nada de realmente novo e surpreendente acontece com ela. Daisy, mulher fisicamente frágil, de feições tipicamente indianas, tem um caráter obstinado e honesto. É sobretudo uma pessoa coerente. Se seu único vacilo foi ter fixado a data para esposar-se eela demonstra, pela primeira e única vez, humildade sincera ao pedir perdão a Raman por tê-lo iludido, Daisy parece ser o protótipo da mulher moderna que coloca a profissão, ou, melhor dizendo, a vocação acima de tudo. Por um lado é fiel às tradições indianas, vestindo-se sempre com um sari de cores discretas para não chamar atenção, adequando-se ao modo simples de viver de sua gente, por outro, rompe com esta mesma tradição e com o sistema de castas (como Rosie, a prostituta de outro romance de Narayan, The Guide). Não só deixa de usar o nome que lhe fora dado, como abandona a família e nem sequer pensa em constituir uma nova. Curiosamente se assemelha a Raman neste intento, poisa princípio o casamento também não fazia parte dos planos do pintor.

Fica claro que um missionário cristão (que somos levados a supor ocidental, pois a presentearacom uma bolsa da companhia aérea britânica) teve profunda influência na formação da dedicada assistente social que Daisy demonstra ser. Nem por isso ela converte-se ao cristianismo ou deixa de nutrir respeito por pessoas, como a tia de Raman, que praticam com convicção a religião hindu. Daisy é tradicional nas feições, nos modos de vestir, de agir,e no respeito ao próximo. Porém rompe com a tradição ao propor-se como uma mulher emancipada; mas não à moda ocidental,de quem compete com o homem em iguais condições. Para ela não se trata de uma rivalidade entre os sexos.

Daisy é tão dedicada à causa do controle da natalidade, que mais parece uma missionária que uma funcionária governamental. Se Raman usa uma bolsa com a estampa do MahatmaGandhi para carregar suas ferramentas de trabalho, é Daisy quem mais parece ter uma atitude “gandhiana”. Seu aspecto missionário e sua retidão, embora possuam matizes tipicamente indianas, têm caráter universal. Ela fizera um juramento ao missionário cristão que fora seu mentor e deseja honrar sua palavra, colocando-se à altura de seu tutor. Neste sentido, não há uma contraposição entre Oriente e Ocidente. Os dois mundos geram indivíduos abnegados e dedicados ao bem comum. Porém, a escolha de Daisy é polêmica: o controle da natalidade acena ao contraponto entre as duas visões do mundo;já a ideia de controle em si está ligada à cientificidade ocidental, sobretudo o controle de uma questão tão peculiar como a reprodução humana parece ferir profundamente a natureza indiana de ser, que se exprime na voz da tia: “Ela me contou sobre o trabalho que faz. Mas não é por vontade de Deus que nascem os bebês?” Raman retruca ironicamente: “Só que nosso governo não concorda com Deus.” Daisy ignora tanto a pseudoingenuidade da tia como a subentendida crítica política de Raman; ela segue em linha reta, como uma flecha em direção à meta.

Ao longo de todo o romance, Daisy prossegue em sua trajetória linear: fugida de um lar parental abarrotado de gente, ela se dedica a mudar um mundo superpovoado e desorganizado. Depois que conta a Raman que “O barulho que se fazia lá em casa e que os outros pareciam nem notar era suficiente para me enlouquecer; quase o tempo todo havia um bebê chorando, crianças gritando; (…) Era um manicômio. Por algum motivo, tudo lá me repugnava. (…) eu simplesmente não gostava daquele convívio todo”,ele acena à “coincidência” e pergunta: “Será que é por isso que você luta para que o nosso país também não seja lotado de gente?” Ela se aborrece e responde:“Interessei-me pela questão demográfica muito mais tarde e isso não tem nada a ver com as minhas primeiras experiências na vida. Não faça esse tipo de associação. Não acredito nessas teorias psicológicas.” Então, se podemos considerar Daisy a imagem emblemática da mulher moderna na ênfase pelos seus direitos, por seus ideais, pelacrença na igualdade entre os sexos, e representante daqueles que buscam uma Índia mais “ocidentalizada”, menos superpovoada e mais controlada, ela nada tem em comum com as suas contemporâneas americanas, leitoras de revistas femininas ou manuais de psicologia. Até mesmo as mais altas “teorias psicológicas” tenderiam a ser descartadas por Daisy, influenciada por alguns ideais e conceitos ocidentais, radicados,porém,na tradição–no caso, a tradição ocidental cristã.

Em outro romance, The Dark Room, Narayantambém dá exemplo de como trata a condição feminina com sensibilidade e agudeza;sem nutrir qualquer tipo de misoginia,o escritor tampouco dá margem a feminismos piegas – aliás, não dá margem a qualquer tipo de “ismos”, em geral.

O escritor também foi sempre atento e sensível às crianças e ao poder que elas possuem (The English Teacher aborda esta questão); Narayan foi um ferrenho defensor de métodos pedagógicos libertários. Criticava, por exemplo, o excesso de rigor nos uniformes das crianças indianas. Para ele os pensamentos sistemáticos, por mais complexos e brilhantes que possam ser, caem sempre na futilidade. Em O pintor de letreiros, o escritor deixa claro este pontodevista quando Raman dá-se conta de estar sendo vítima de um“ismo”: «Passaram-se meses desde que ele começara a se perder em daisysmo. “Tenho que me curar disso e questionar constantemente: ‘O que é Daisy para mim e o que sou eu para Daisy?’”» A saída à armadilha da ideologia vem indicada na literatura– no caso, uma receita shakespeariana.

 

O segundo deslocamento é uma metáfora.

Embora não viaje no carro– ao contrário, no desfecho do livro Raman permanece no mesmo lugar, diante do chafariz–, o distanciar daquele veículo opera nele uma verdadeira metanoia. Este é o segundo deslocamento provocado pela partida dotáxi; um movimento interior, quântico, qualitativo: ocorre uma mudança tanto no pensamento como no sentimento do pintor de letreiros, que pela primeira vez parece perceber a ausência de Daisy como uma presença. A falta de Daisy a partir daquele momento não será mais vivida como lacuna. A presença do vazio deixado por ela abre espaço para novas possibilidades. Ao longo de todo o romance, Raman sentia-se carente ou destituído quando Daisy não estava ao seu lado. Agora, quando ela realmente se vai “para todo o sempre”, o abandona, a privação provocada por ela deixa de serpena e transforma-se em dom, ganha positividade. Raman muda de posição, passa a ter possibilidade assertiva.Pela primeira vez desde que se vira vítima de “daysismo” –ele faz o que quer, algo que certamente terá intrigado o leitor, mas “um ato que de algum modo provocou-lhe enorme satisfação, pois fez o que desejava, finalmente”: ele lança no chafariz seco a chave que Daisy lhe confiara, pega a bicicleta e dirige-se ao Senletreiro.

Esse gesto,à primeira vista,pode parecer típico de um pintor “sempre infantil”, como afirma Gaffur quando Raman cogita em furar o pneu do carro. Contudo nós sabemos que a ideia de furar o pneu não era de todo privada de lógica. O gestode lançar a chave no chafariz pode ser visto ainda como, aparentemente, privado de sentido, repetição da incoerênciaconstante do temperamental “artista das letras”. A chave, símbolo de abertura e poder, é lançada num chafariz seco. O vazio como receptáculo de um arremesso impetuosoe a consequente abertura a novos arrebatamentos. Ou estou me deixando levar por “teorias psicológicas”?

Até o momento em que o Chevrolet deu a volta no chafariz e desapareceu em meio à fumaça, todas as deliberações de Raman eram o tempo inteiro contraditas por ele mesmo, como quando “queria evitar pensar em sexo, minimizar sua importância, exatamente como fazia com o dinheiro”e mais se sentia possuído pelo desejo carnal, e mais era obrigado a prestar atenção à contabilidade para com os clientes. Quanto mais decidido estava a estabelecer a “Idade da Razão” no mundo (“‘Exijo uma explicação racional para tudo’, exclamou, ‘senão a minha mente se recusa a aceitar qualquer enunciado.’” “Sou um racionalista, e não faço nada se não vejo que tem lógica.”), mais se via vítima de contradição, mais tinha uma percepção de si como ser irracional e duplicado, dividido, possuindo uma voz audível e outra não. Um diálogo em dois planos.

Raman, à diferença de Daisy e da tia, é um ser incoerente. Será essa uma característica indiana? Ocidental? Moderna? Certamente sua duplicação, seu discurso em dois níveis, acena à modernidade, ao “Eu Profundo e Outros Eus”, para dizê-lo com Pessoa. A maestria narrativa de Narayan se expressa no domínio dos vários eus de Raman e na plena consciência de conduzir o leitor num processo de identificação não só com o protagonista, não só com os demais personagens –a tia, o proprietário do Armazém Chettiar ou, quem sabe, ainda Gupta… A obra máxima do escritor é ser capaz de fazer com que passemos por um processo de identificação quenão diga respeito necessariamente a qualquer personagem específica.Somos levados a nos identificar com um mecanismo, a reconhecermo-nos numa dinâmica, que é a própria dinâmica do eu. As forças mentais tornam Raman capaz de criar e destruir o seumundo e até mesmo diversos mundos, contínua e incessantemente. Alguns desses mundos existem apenas na imaginação do pintor, porém os eventos imaginados não deixam de afetá-lo e, por consequência, afetar também os que estão ao seu redor: Maia, o mundo como ilusão.O encadear dos eventos, numa série movida pela mecânica da ação e da reação, obedecea uma lógica semelhante àquela que levou a declararem guerra os dois países de Diabo a quatro, com os irmãos Marx.

Ao nos permitir esse exercício lúdico, ao nos conceder observar de forma privilegiada o jogo ao qual também estamos sujeitos através da incansável fantasia do pintor, Narayan nos concede a graça, a rara ocasião de poder vislumbrar claramente quão fictício, vão e frágil são estes nossos eus(que muitos insistem em crer único e indivisível e outros – os mais “pós-modernos”, frequentadores de poetas como Fernando Pessoa, e talvez até psicanalisados – dizem-se sabedores de sua multiplicidade, chegando até mesmo a cultivá-la).Narayan nos faz sorrir não só diante de cada nova tirada do pintor, mas nos faz sorrir também e atérir, benévolos,de nós mesmos. A anedota não é baseada num personagem em detrimento de outro. A burla é acerca de todos nós, de nossa frágil e potente condição. Potente, mas não onipotente. Se nem mesmo os deuses são onipotentes, visto que são passíveis de serem “trancados” num armário!

No fim das contas, é bastante mesquinho sofrer ou atormentar-se porque Daisy decidirá se casar com ele ou abandoná-lo e partir. Não que isso não tenha importância. Claro que tem: é um fato bastante relevantena vida. Se já um dia de sol e um dia chuvoso são fadados a serem absolutamente diversos, o que dizer da vida de um solteiro e daquela de um casado!Tudo e cada qual tem sua razão de ser; todos úteis, ninguém indispensável. A pena de Narayan, na sua dupla acepção de instrumento de escritura e pathos, é incontaminada pelo niilismo.Porque tanto no dia ensolarado como no chuvoso não só se faz dia, comodias que valem a pena ser vividos. Com gratidão, plenitude e compaixão.

 

No pano de fundo, de forma discreta, como adequa-se a seu caráter, está a tia. Nem por isso é um personagem de menor importância. Sua crença de cunho religioso é tão sólida quanto a ideologia de Daisy. A tia e Daisy possuem a congruência que falta a Raman. Porém as duas mulheres formam um par rival, não por disputarem o amor de Raman, já que este é assegurado a ambas. Mas a disputa faz-se no plano do papel da mulher: se sua centralidade deve restringir-se ao ambiente doméstico ou ter caráter nacional, se deve ser movida pela fé ou pela ideologia e, por consequência, se deve aceitar o próprio destino ou julgar-se artífice do próprio fado. Narayan não dá respostas, até porque não coloca estas perguntas desta forma tão simplificada e maniqueísta, apenas acena às diversas maneiras de estar no mundo e à possibilidade de comunhão mesmo entre posturas tão díspares. O apoio de Daisy para que Raman consinta que a tia parta para a última peregrinação de sua vida é um ótimo exemplo disso. A seu modo também a tia, antes de partir, não deixa de aceitar que o casamento do amado sobrinho não obedeça aos padrões do tradicional casamento arranjado entre as famílias e com ênfase nos horóscopos dos pretendentes. Vale lembrar que como Daisy, a tia carrega poucos pertences que não chegam a encher uma sacola de juta, aliás a única ater uma bolsano logo: sem acenar nem à aviação inglesa (como a sacola de Daisy) e nem mesmo ao grande líder e patrono nacional (como a bolsa de Raman).

 

O terceiro deslocamento.

Como o segundo, o terceiro deslocamento gerado pela partida do táxi de Gaffur também não se dá no espaço e também tem caráter sentimental, mas não é,necessariamente, um movimento unívoco, pois diz respeito à singularidade de cada leitor. Ao virar a última página do romance que acabou de ler, ao fechar o livro e talvez também os olhos por aquele instante necessário a interiorizar o que “aprendeu”, isto é, a “história”, o leitor sente-se desiludido, mas feliz. Desiludido, pois lhe foi categoricamente negado um ingênuo happy end, com o qual secretamente sonhava. E feliz, pois, junto ao pintor, sente-se profundamente liberado, mas também intrigado. Quem é quem no enredo criado por Narayan? Quem é honesto, realmente? Daisy, que possui um ideal? Raman, capaz de sustentar uma promessa de amor? Ou a tia, guiada por sua fé? Ou ainda o dono do armazém, com seu lema de poder sempre dizer “sim, tenho”? O proprietário do sebo, intérprete da astúcia das traças, que “tirava seu sustento da aceitação da própria falência”?Ou, mais ainda, o Professor Municipal, que dispensa ensinamentos espirituais pelo valor de cinco paisa? O sacerdote do templo? Ou o condutor de carrodeboi ou ainda o simples camponês que implora pela ajuda de Daisy?E onde cada um de nós se situa na rede de uma comunidade ligada, conectada por letreiros que apregoam, além de uma atividade, de um comércio, o próprio fazer ea maneira que cada um tem de ser e de estar na vida e no mundo?

 

Estes três deslocamentos enumerados obedecem a uma força centrífuga: do centro para a periferia, do interior para o exterior. Um centro vazio, como o chafariz sem água pode ser “a chave de tudo”; um ponto de partida (e de chegada) que funciona como abertura para infinitas possibilidades e não como força aprisionadora, quando o desejo não liberta, mas pode nos conduzir até mesmo à cadeia, como arriscou nosso protagonista! Essa força centrífuga reina e predomina no final e é causa liberatória.

Diversa é a força operante no curso do livro, que oferece o risco de imobilidade e infelicidade. E não somente quando tememos que Raman possa acabar literalmente encarcerado em razão da denúncia à polícia, ameaçada por Daisy. Para além das páginas de cômico suspense, ao longo de todo o romance estamos sob o poder de uma força centrípeta – a força das vozes que narram a história e que compõem uma espécie de sólida trindade, num triângulo compacto e coeso, que não deixa via de fuga. Cada voz narrativa ocupa um vértice desse triângulo: a voz do narrador (que se duplica e por vezes confunde-se com a do protagonista), a voz de Raman (que igualmente é dividido, e a prova disso é seu discurso que se faz em dois planos, um audível e outro não) e, por fim, o terceiro vértice é composto por cada leitor, porque distintos personagens ganham a nossa preferência e a nossa simpatia –a tia, Daisy, Raman, claro, mas também, porque não, o bigodudo do Rajastão e todos os outros personagens menores, mas nem por isso insignificantes. Todos povoam Malgudi. Como todos nós, são eles que fazem uma cidade e contam um conto.

Enquanto capturado, encantado por todas e por cada personagem, enquanto o leitor transita entre um letreiro e outro,ele (isto é, cada um de nós) também sofre mitose: continuamos a ser nós mesmos e deixamos de sê-lo. Cada um de nós é tragado por esta força centrípeta que nos posiciona no centro (vazio) da história e cada um raciocina, inverte o raciocínio (nem que venha a dar no mesmo ponto…). Enfim, temos olhos para ler e ver,cabeça para imaginar e que não para de pensar, projetar. Como Raman, enquanto pedalava e“sua mente tornava-se passiva; as ideias afloravam à superfície, borbulhavam ali um pouquinho, em seguida pipocavam e sumiam” ou ainda quando“os pensamentos atravessavam a mente dele qual um punhado de nuvens flutuando no céu, oriundas de algum lugar, mas sumiam assim que ele se sentava no ônibus do lado dela e avistava o desfilar das árvores e da paisagem pela janela”. Nosso eu é realmente um outro ou uma trindade de outros, como dizia. Ilusoriamente outros, capturados pela força centralizadora da narrativa.

 

O dualismo atravessa o romance em diversas vestes: a do sagrado e a do profano, do saber espiritual e do secular, seja ele científico, filosófico ou “simplesmente” poético. Ou ainda numa visão domundo ocidental contraposta àoriental, indiana. A integridade moral e a falta de ética que procura sempre levar vantagem;o bem comum e a felicidade individual; a notoriedade e a candura do anonimato; a juventude e a velha geração; a inovação numa sociedade em transformação e a sociedade arcaica e conservadora, que custodia saberes milenares. Arte e caos; dinheiro e a utopia de uma vida sem moeda corrente.

As questões fundamentais que dizem respeito à existência humana não são eludidas por Narayan, tampouco abertamente enfrentadas com doutrinas e dogmatismo.

Na página 12 lemos que “A essência reside no pleno respeito do tempo: um minuto a mais ou a menos pode fazer toda a diferença entre um milionário e um mendigo”. (Quem duvida? Mas para Raman a assertiva carece de cientificidade.) E, mais adiante, na página 36, o Professor Municipal ensina que “o passado já passou, o presente está passando e o amanhã é o ontem de depois de amanhã”. Diante do letreiro que carregava Raman, “Pagamento só em Dinheiro”, o mesmo Professor interroga, na página seguinte, qual eficaz filósofo desconstrutivista: “O que realmente quer dizer ‘dinheiro’? O que significa ‘só’?” E oferece em seguida a mais sintética e antiga das soluções, revelada na página 39: “Passará”.Tudo passa, a vida é um fluxo em transformação, que não pode ser contido. “O curso que se pode discorrer não é o eterno curso, o nome que se pode nomear não é o eterno nome”,rebate o Dao De Jing, assim como a Antiguidade grega era conhecedora da impossibilidade de voltar a banhar-se num mesmo rio.

 

Com leveza e maestria Narayan demonstra o teorema antigo, mas sempre atual, que desafia a humanidade: o mecanismo mental opera por deslocamento, semelhança, contiguidade, simultaneidade, associação, causa e efeito, e é sempre aprisionador. Ao limitarmo-nos aos caprichos da mente, ao aferrarmos nossa identidade como nossa razão de ser,estamossujeitos às mesmíssimas leis aprisionadoras e ao falso conflito (ou equivocada solução) do“eu sou um outro”. “A essência reside no pleno respeito do tempo”, na aceitação de que tudo passa, mas nada é realmente efêmero. A graça revela-se na eternidade do instante: Raman“estudou a mensagem, que parecia se tornar cada vez mais profunda à medida que meditava sobre ela, provocando-lhe a sensação de um incessante fluir dos objetos e do tempo. Liberto de toda sensação de clausura ou estagnação, Raman encheu-se, súbito, de luz no coração”.

 

Como escreve Monica Ali, em sua introdução à edição inglesade The Painter of Signs (Penguin Books, 2006)“em Malgudi, nós não voamos com os deuses, mas vagamos por ruas empoeiradas, permanecemos ociosos à beira do chafariz ou no mercado e admiramos os banhistas no rio ao entardecer”. As pessoas normais compõem a galeria de heróis e os grandes eventos são os fatos mais corriqueiros do dia a dia. Este é o segredo da alquimia de Narayan.

Alquimia que não bebe da fonte que tenta transformar um anônimo num superstar, como acontece com os Big Brothers da vida, espalhados pelo mundo. Nem daquela estatística de um em um milhão que agracia o personagem de Quem quer ser um milionário? (retornando ao território indiano, onde a vida, literalmente, imita a arte). Não. Aqui o ordinário é extraordinário não porque todos podem saber o que ele pensa e faz no facebook ou está em contato com o mundo inteiro porque apareceu em todos os “letreiros” ao mesmo tempo. Por incrível que pareça, o que faz o contato não é essa comunicação insaciável e sem limites. A atual revolução tecnológica que afeta os meios de comunicação é inquestionavelmente útil efascinante. Utilíssima, até.Mas a verdadeira “rede social” – a comunhão diante da maravilha, do sublime- é feita de tecido impalpável, de matéria invisível, mas não imaterial e nem muito menos virtual.

Como Narayan escreveu em The Vender of Sweets, “ficamos cegos por causa de nossas ligações. Toda ligação gera desilusão e somos arrastados por isso”. Compelidos por nossas ambições, inseguranças e pelo ceticismo,como São Tomé, temos que ver para crer (qual maior cegueira?) e, ao mesmo tempo, somos capazes de não acreditar naquilo que está diante de nós, desde sempre.Raman“estava rascunhando num pequeno bloco as letras que deveria pintar. Por cima do baixo muro dos fundos, onde às vezes avistava-se uma cabeça caprina, surgiu agora outro tipo de cabeça – ele percebeu isso de rabo de olho. Deu as costas e prosseguiu o trabalho. Ignorou aquela presença por um bom tempo, mas quando começou a ter a sensação de que fungariam na sua nuca, virou-se. Demorou a decifrar a visão. Uma alucinação? Sim, é comum quando a mente está obcecada por uma só imagem. Ainda assim, a visão o excitou”.

 

EmThe Writerly Life, Narayan adverte que não tem intenção nenhuma de aprimorar o mundo e sente-se desesperado diante daqueles que buscam significados ocultos, implicações morais, compromissos ideológicos ou preocupações de cunho social em seus escritos. Abomina um ethos nacional. Ele diz preferir o leitor que “escolhe um livro por acaso”, talvez bem ao molde de seu personagem, pois “para folhear à tarde, Raman pouco se interessava na escolha do livro; poderia ser A história do declínio e queda do Império Romano,de Edward Gibbon, ou Kural, a poesia clássica tâmil do século X. Possuía uma sua própria filosofia dos livros – a única classificação importante era a que os distinguia entre bons e ruins”.Sem a necessidade de se seguir ou criar uma nova doutrina, a vida pode ser tão simples como escolher um livro para ler: muito deve-se ao acaso, às moiras, mas também somos chamados a fazer nossas escolhas e julgá-las boas ou ruins.A importância dessas escolhas não se minimiza quando nos damos conta de que não há nenhuma escala de valor entre a “via reta” da tia ou de Daisy epersonagens que se deixam transformar pelos eventos, como Raman (emO pintor de letreiros,The Painter of Signs), Raju (em The Guide), Chandran (em The Bachelor of Arts) e ainda Krishna (emThe English Teacher).

Não creio que Narayan se sentiria desconfortável se fosse convidado a fazer coro com Santo Agostinho:“Ame e faça o que você quiser, pois nada do que você fizer por amor será pecado.” Mais que isso: ao compor caleidoscópio tão rico e multifacetado, o escritor indiano nos coloca diante do coro do mundo, onde cada voz é única e insubstituível, embora todassejam imperfeitas. Ainda assim não só o conjunto tem sentido, também cada elemento é belo na sua imperfeição. Portanto, “renuncie e goze”, parece também dizer com Gandhi quando o grande líder citava a Isa Upanishad. O texto sagrado da tradição hindu preconiza que ao rejeitara imposição do transitório, alcança-se a beatitude no eterno. Abandonar o passageiro não é negligenciá-lo ou negá-lo, não é o abandono do mundo e suas efemeridades. Mas a recusa de suas amarras, de seus grilhões: o passado que já passou, o presente que está passando e o amanhã que é o passado de depois de amanhã.A dádiva encontra-se fora do tempo. E romper com os grilhões do tempo não requer pactos mefistofélicos, nem mesmo uma ilustre passagem à história, à imortalidade, mas conhecer a glória dos lírios do campo.Também quando fenecem. Portanto, não devemos nos pre-ocupar, mas ter ocupações frutíferas, como por exemplo escolher sempre bons livros para ler e, assim,ser capazes de escrever vidas mais plenas e felizes.