Dois cafés e a conta com Suzana Vargas – 20/04/2014

Data:20 de abril de 2014 Tags:
Dois cafés e a conta com Suzana Vargas

Dois cafés e a conta com Suzana Vargas

 

A professora que, sem qualquer apoio, criou um oásis literário no Rio, a pioneira Estação das Letras

Revista O Globo– 20/04/2014

Tinha tudo para dar errado. Mas, mesmo sem qualquer tipo de apoio, um pequeno espaço escondido nos fundos de uma galeria do Flamengo já atraiu professores como Cleonice Berardinelli, Ferreira Gullar, Antônio Carlos Secchin, Antônio Torres e Ana Maria Machado. Por lá, passaram mais de 15 mil alunos. Os 18 anos da Estação das Letras serão celebrados na quinta-feira, na Casa de Rui Barbosa, às 17h, numa festa gratuita que tem como mestre de cerimônias o escritor português Gonçalo Tavares, que falará sobre os universos da criação literária. Além de aulas e palestras, a Estação oferece eventos como trocas de livros, oficinas on-line, cursos para empresas e serviços de análise de originais. Dali saíram alunos que publicaram 20 livros infantis, ganharam o prêmio Jabuti, participaram de antologias como a “Granta”. Por trás deste milagre literário está a gaúcha Suzana Vargas, de 59 anos, formada em Letras, professora, escritora e poeta, autora de 16 livros, amiga de nomes como Mário Quintana e idealizadora das Rodas de Leitura, onde Jorge Amado leu pela primeira vez seus textos.

REVISTA O GLOBO: De onde veio a ideia da Estação das Letras?

SUZANA VARGAS: Eu dava aulas na primeira oficina literária do país, do professor Afrânio Coutinho. Quando ela fechou as portas, alguns alunos pediram para continuar, em suas casas. Mas detestei, é muita dispersão, o telefone toca, tem gente fritando ovo, vira coquetel. Falei com amigos próximos sobre a ideia de ter um espaço meu, todos acharam maravilhoso e se propuseram a dar uma força, mas ninguém quis ser fiador. No que tinham razão, afinal eu era professora, morava de aluguel. Até que uma aluna disse: “Você já encontrou o fiador, sou eu.” Mas pensei em desistir muitas vezes, em especial nos dois primeiros anos. Criava duas filhas sozinha, sem pensão do ex-marido. E a Estação vivia no vermelho, me diziam para fechar. Durante 13 anos fiquei sem receber um centavo da empresa, só das aulas que dava na própria Estação. Só há cinco tiro uma pequena remuneração de lá. Somos pioneiros, mas ninguém em sã consciência faz o que fiz.

E como você fazia para sustentar a Estação?

Montava projetos como as Rodas de Leitura, dava aulas em quatro lugares, fazia revisões e traduções. Não somos ONG, não recebemos verba pública, não temos patrocínio de empresa ou financiamento de banco, não estamos ligados a uma instituição acadêmica. Somos o único espaço alternativo no país dedicado somente à literatura. Uma vez, em 1996, num jantar após um evento com o escritor José J. Veiga, eu falava das dificuldades e ele, consternado, ofereceu o cheque que havia ganho da gente, para ajudar. Fiquei envergonhada e nunca mais me lamentei.

O que a fez ir em frente apesar de tantas dificuldades?

Querer dividir as alegrias que a literatura me deu ao longo da vida. Tudo que fui, sou ou serei devo às descobertas que ela me proporcionou, sejam existenciais, políticas, amorosas ou profissionais. Até os 18 anos eu nunca tinha visto televisão, só conheci quando cheguei ao Rio, em 1973, vinda de Quaraí, pequena cidade de 20 mil habitantes na fronteira do Uruguai. Lá não tinha retransmissora de TV. Mas havia livros nas estantes de minha mãe, professora primária, e de meu pai, músico e funcionário público. Os livros me salvaram. A literatura sempre explicou o mundo para mim. Escrever faz bem, ler nos melhora como pessoa. Quero levar esta espécie de fé a mais gente. E percebo o quanto a Estação traz de realização para quem a procura.

Mesmo sem apoios, vocês têm algum sistema de bolsas?

Nas oficinas, damos bolsas de 50% para estudantes e professores, e bolsas integrais para alunos carentes. Um dos bolsistas mais famosos é o Otávio Júnior, o Livreiro do Alemão (escritor nascido na favela e criador de um projeto de leitura nos complexos da Penha e do Alemão). Aqui ele teve contato pela primeira vez, há dez anos, com a criação de textos na oficina de literatura infantil. É nosso bolsista permanente, um orgulho para nós.