A Letra Falante apresenta:

Obras literárias de origem africana
Alguns livros, histórias, resenhas...

I) De autores brasileiros

Falando Banto - resenha - Letra Falante

Falando Banto
Texto: Eneida Gaspar
Ilustração: Victor Tavares
Editora: Pallas
ISBN: 9788534704021
Ano: 2007
Nº de páginas: 28
Formato: 20,5 x 23
Balangandãs

Mariucha Rocha

Este livro foi editado em 2007, em papel couché sem brilho, com cuidados especiais, como o detalhe do destaque da numeração de páginas, e com desenhos do artista plástico Victor Tavares.

A idéia do resgate de nossas palavras de origem africana, por si só, já valeria a pena dar uma olhada no livro. Mas o que Eneida Gaspar consegue desenvolver, nesse seu primeiro livro para crianças, na trama de suas palavras, é uma gostosura que vem muito bem acompanhada das ilustrações lúdicas, delicadas e ricas em movimentos, o que resulta um belo trabalho.

Pense em Forrobodó - “moleca sapeca saçarica no samba”, e isso é só o começo. Siga com Batucada – “Batuca o bumbo, sacoleja o caxixi, cutuca a cuíca...” e Quitutes – “(...) Tem cachaça na moringa. Tem cocada na cabaça. A cambada, empanzinada, zonza, bambeia e babau...” Mas tome cuidado, pois em Mutreta Fuleira - “(...) o menganha não é tolo, e foi tudo pro xilindró.” Tudo isso vem com um vocabulário explicativo da origem das palavras em línguas africanas e com referência bibliográfica.

Como início de uma pesquisa, vale para pais, mestres, brancos e negros. E também para pequenos que se iniciam na palavra e grandes que a admiram.

Os gêmeos do tambor - resenha - Letra Falante

Os gêmeos do tambor (reconto do povo massai)
Texto: Rogério Andrade Barbosa
Ilustração: Ciça Fittipaldi
Editora: DCL
ISBN: 8536801069
Ano: 2007
Nº de páginas: 41
Formato: 20,5 x 27,5

Carla Jarlicht

Encontro com os massai

Os gêmeos do tambor é uma das histórias mais conhecidas dos massai, povo guerreiro e nômade que vive entre o Quênia e a Tanzânia, na África. Recontada por Rogério Andrade Barbosa, estudioso das tradições culturais africanas, essa história nos leva para dentro do universo desse povo, de suas tradições e seu modo de vida.

Conforme o costume do seu povo, o aldeão Kipetete tinha duas esposas. Uma delas, Awoi, nunca gerara um filho. Em compensação, a outra, Marogo, já era mãe de três meninas e estava grávida novamente. Assim, é a partir do confronto entre costume e inveja, sentimento primitivo inerente ao ser humano, que nasce esta história.

Awoi, inconformada com a sua infertilidade e temendo não ser mais amada pelo marido, decide matar os meninos recém nascidos de Marogo. Enquanto todos da aldeia dormiam, Awoi pega os bebês, coloca-os dentro de um tambor e livra-se deles jogando-os no rio. Antes, porém, corta a ponta de seus dedos e espalha o sangue pelas vestes da rival, incriminando-a pela morte das crianças. Apesar de Marogo negar a responsabilidade pela morte de seus filhos, acaba sendo condenada pelos sábios da aldeia e castigada com o seu afastamento. Todavia, a sorte dos meninos é outra e eles acabam sendo salvos por um velho pescador, que resolve criá-los como filhos. Ele lhes dá os nomes de Kume e Kidongoi, que passam a ser conhecidos como os gêmeos do tambor. Mas esse é apenas o começo...

Ao longo dessa narrativa, Rogério procura transmitir a riqueza cultural dos massai. Desse modo, o conto Os gêmeos do tambor serve como veículo para que mitos, rituais, hábitos, provérbios e língua do povo massai sejam alguns dos aspectos revelados neste livro, que foi indicado pela Fundação Nacional do Livro infantil e Juvenil - FNLIJ como “Altamente Recomendável Reconto”.

A ilustração de Ciça Fittipaldi é um encantamento à parte. O colorido vermelho, característico das vestes dos massai, é trazido para o livro juntamente com a luminosidade do amarelo ouro das savanas e a negritude da pele da gente do povo. Adereços como colares, brincos, pulseiras, bem como a organização da aldeia, são cuidadosamente inseridos nas imagens. Suas ilustrações enriquecem a narrativa, demonstrando o cuidado com a preservação da identidade desse povo.

Nesse sentido, mais do que recontar uma história, a narrativa de Rogério juntamente com as belas imagens de Ciça conduzem o leitor a um verdadeiro encontro com os massai, aproximando nossos continentes e instigando a curiosidade e a busca de novos conhecimentos.

Gosto de África - resenha - Letra Falante

Gosto de África: histórias de lá e daqui
Texto: Joel Rufino dos Santos
Ilustração: Cláudia Scatamacchia
Editora: Global
ISBN: 8526010204
Ano: 2005
Nº de páginas: 48
Formato: 18 x 26

Dilma Bittencourt

Não importa o conto, o mito, a lenda, o reconto. Importa, e mais que importa, aqueles que viveram o conto, o mito. E, mais ainda, aquele que registrou a história.

História da conseqüência e da inconseqüência do berço da humanidade: a África. Joel Rufino dos Santos nos presenteia com Gosto de África, Editora Global, 2005, 3ª edição, Histórias de lá e daqui, com ilustrações de Cláudia Scatamacchia.

São sete histórias em que o autor sublinha preconceitos de forma invertida, com inclusão, olhando com o olho de criança, natural e espontâneo. Uma narrativa rica de informações e sutilezas. Questiona e fala de temas como religião e Deus, em forma plural, pela voz dos personagens. Foge das definições, com o seu ponto de interrogação, dá à criança o seu momento de reflexão.

Em “Filho de Luiza” introduz o leitor mirim na luta do negro na Bahia, por espaço e dignidade. Desperta curiosidade pela abolição, em seu enfoque histórico da revolução dos malês, iniciada em 1835. Uma rebelião que envolve escravos, libertos, senhores e quartéis.

Em “Pérolas de Cadija”, narra a história de uma menina do Senegal. Como também em qualquer conto do Ocidente, o Oriente representa o estereótipo da madrasta, sempre algoz. A ausência do pai pela omissão, e transferência de poder à madrasta. E, como vítima, a filha pela perda da mãe. As pérolas simbolizam a generosidade de Cadija e a ganância da madrasta.

O autor retrata o cotidiano através do lúdico, representado pelos monstros e anjos. Mas a persistência da menina a tira da condição de vítima, do destino traçado pela madrasta. E o coração pululando da madrasta, na panela de cuscuz, traduz a vida desperdiçada. Como em “João e Maria”, dos Irmãos Grimm, as pérolas, riqueza material, são transformadas em afeto.

Joel Rufino dos Santos ainda nos convida a ler a “Sagrada Família”, “O Leão do Mali,” ”Bonsucesso dos Pretos”, ”A Casa da Flor” e “Bumba- meu- Boi”, onde a ilustradora, com arte, exprime os gestos de incredulidade e desalento do amo com a perda do boi vindo do Egito, em Caravela. E, como diz o próprio Joel, “esse foi o primeiro bumba- meu- boi do mundo.”

Nyangara Chena - resenha - Letra Falante

Nyangara Chena: a cobra curandeira
Texto: Rogério Andrade Barbosa
Ilustração: Salmo Dansa
Editora: Scipione
ISBN: 9788526262092
Ano: 2006
N° de páginas: 24
Formato: 19,5 x 26

Rosane Villela

A literatura que fala lendas

A literatura que fala lendas fala do universal. As lendas respiram através da contação transmitida através dos tempos. Uma narrativa fantasiosa, que acorda as raízes de um povo através da oralidade. Se a oralidade morre, a lenda é esquecida. E se ela é esquecida, a identidade de um povo também pode se perder.

Tradição, ética, educação fazem parte de qualquer povo que se preze povo. Assim como a palavra que ele utiliza para manifestar-se. Na palavra, o povo se diz, se conta, se resolve, e é conhecido por outros povos. E as lendas são um dos meios para que a palavra o personifique, camuflando, em fatos fantasiosos, a sua história e os seus valores.

Rogério Andrade Barbosa é exímio conhecedor das inúmeras lendas que inundam os países da África. Como escritor, alia a sua vivência de ex-professor voluntário das Nações Unidas na Guiné-Bissau e a experiência de pesquisador das histórias do fabuloso universo africano à habilidade de contador de histórias. Premia a oralidade em função do universo das lendas, para que a cultura e a tradição dos lugares a que elas se remetem nos sejam transmitidas.

Na obra Nyangara Chena: a cobra curandeira, Rogério conta a história de uma cobra que tem, como o próprio título diz, o poder da cura. Esta lenda mais encanta do que causa estranhamento, e o autor, hábil, consegue nos conduzir para o maravilhoso dessa hipótese que gira com as personagens até o fim de seu texto. Então, o que é fabuloso vira realidade ante os nossos olhos. A realidade de um povo, o xona, que viveu no interior do Zimbábue. Com os seus valores éticos, a sua identidade cultural, e a sua memória.

As ilustrações primorosas de Salmo Dansa trazem ainda maior prazer, ao proporcionar uma outra possibilidade de leitura: a de sua arte. Através da presença constante da cobra nas páginas do livro, ele oferece ao leitor a sensação de suspense, envolvendo-o numa expectativa prazerosa do encontro com o animal, um ser ainda invisível no desenrolar da história, mas, ao mesmo tempo, visível aos nossos olhos e tão próximo de nós. O medo face ao gigantesco animal, a expectativa do encontro e a alegria pela solução encontrada juntam-se, assim, ao texto de Rogério Andrade Barbosa e tornam o leitor um co-participante da história.

Nyangara Chena: a cobra curandeira, selecionada para a Bienal de Ilustrações de Bratislava 2007, faz parte do Acervo Básico 2007, na Categoria Reconto, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ, assim como de seu Catálogo da Feira de Bolonha 2007.

Outros contos Africanos para crianças brasileiras - resenha - Letra Falante

Outros contos Africanos para crianças brasileiras
Texto: Rogério Andrade Barbosa
Ilustração: Maurício Veneza
Editora: Paulinas
ISBN: 8535617558
Ano: 2008
Nº de páginas: 24
Formato: 18 x 23

Filomena Sillman

Em busca dos porquês

O livro traz duas fábulas de origem africana, bem narradas, em linguagem coloquial e fluente.

O autor, professor de literatura, lecionou nas aldeias da Guiné- Bissau, África, para crianças e adultos, como um voluntário das Nações Unidas. Adquiriu conhecimentos dos costumes africanos e resolveu registrar contos, causos, histórias. Com destacado cuidado nas suas pesquisas e relatos, Rogério pode ser considerado um condutor e divulgador da cultura africana para os brasileiros. Em reconhecimento ao seu trabalho, recebeu vários prêmios, tendo livros publicados em diferentes idiomas.

A leitura da presente obra pelas crianças certamente trará perguntas e questionamentos de fatos inexplicáveis da natureza contemplados na história, como por exemplo, podemos apontar: “Por que a galinha-d’angola tem pintas brancas?” E ainda: “Por que o porco tem focinho curto”?

São algumas questões que estão relacionadas à identidade das crianças. A narrativa pode despertar no leitor o sentimento de solidariedade e o devido cuidado diante dos invejosos. Afinal de contas, estamos diante de um conto da cultura oral.

As ilustrações, coloridas, em tons da natureza como o do barro e o da terra, foram feitas em computador. Elas resgatam não somente cores e formas do meio ambiente, como também conteúdos da África presentes no nosso país.

Oxumarê, o  Arco-íris - resenha - Letra Falante

Oxumarê, o Arco-íris
Texto: Reginaldo Prandí
Ilustração: Pedro Rafael
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 8574062359
Ano: 2004
Nº de páginas: 64
Formato: 19, 5 x 26

Susana Maria Fernandes

O livro Oxumarê, o Arco-Íris, de Reginaldo Prandí, reúne vários contos da cosmogonia do povo yorubá ou nagô. Os yorubás foram escravizados e vieram para o Brasil se fixando no Rio de Janeiro, na sua grande maioria, e com eles vieram seus costumes, suas crenças e seus deuses.

O texto é de fácil compreensão e instigante, apesar de ser uma mitologia pouco conhecida, entretanto a cada página a curiosidade aumenta. A linguagem não-didática, torna o texto leve despretensioso e, ao mesmo tempo, exerce uma função informativa, preocupação principal do autor.

O que se pôde observar é que em todos os contos os orixás se comportam como os deuses gregos: com a mesma beleza, os mesmos encantamentos, as intrigas, os desejos, a luxúria, a ambiência. Muda apenas a geografia. Os deuses gregos têm o Olimpo como residência e os deuses yorubás têm ora o firmamento, ora a terra. Isto porque os orixás são a personificação das forças da natureza, saídas das mãos de Oba Orum (Deus) com a missão de serem seus mensageiros entre os homens.

Há um conto “A mulher que se transforma em Búfalo” que trata do amor de Ogum por Iansã que pode causar alguma estranheza, pois Iansã é conhecidamente mulher de Xangô. Isto fica claro nas músicas afro-brasileiras em que se enaltece o amor de ambos e se confirma no conto “A briga da velha senhora com o ferreiro”. Diferentemente, na cosmogonia grega onde Zeus e Hera são, de fato, um casal; e, apesar das constantes infidelidades de Zeus, Hera está sempre ao seu lado.

Retomando ao conto “A mulher que se transforma em Búfalo” pude constatar grandes semelhanças com o conto escocês “O gentil-homem de Wastness”. Ora, o que tem a mitologia yorubá com a Escócia? Tudo. Porque estamos falando de oralidade, não há fronteiras culturais e muito menos geográficas, o que há é memória e a necessidade de se manter viva a cultura dos povos, sejam africanos, europeus, asiáticos, enfim, não importa a origem.

Ao ler o conto “O dia em que o Arco-íris estancou a chuva” que faz alusão ao dilúvio, ao início de tudo assunto muito presente nos contos indígenas, vem confirmar o que há muito desconfiava. Somos filhos de um só útero, só variamos o modo que sentimos e olhamos para essa grande mãe.

As ilustrações de Pedro Rafael não interferem no texto, elas simbolizam cada orixá, ajudam o leitor a se familiarizar com eles. Os traços egípcios nos seus desenhos trazem elegância e sofisticação ao livro e a clareza ajuda a manter a leitura, cumprindo a função de informar.

O livro completa a trilogia Mitologia dos Orixás para Crianças e Jovens, iniciada com Ifá, o Adivinho e Xangô, o Trovão. São livros independentes que contam os principais mitos dos orixás pertencentes às tradições afro-brasileiras: Exu, Ogum, Oxossi, Nanâ, Omulu, Xangô, Obá, Iansã... Tudo isso hoje faz parte do patrimônio cultural brasileiro.

Um passeio pela África - resenha - Letra Falante

Um passeio pela África
Texto: Alberto da Costa e Silva
Ilustração: Rodrigo Rosa
Editora: Nova Fronteira
ISBN: 852091781X
Ano: 2006
Nº de páginas: 80
Formato: 15 x 23

Emilia Machado

Vamos passear pela África?

O autor, Alberto da Costa e Silva, membro da Academia Brasileira de Letras - ABL, diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e historiador, produziu vasta bibliografia sobre o Continente Africano e é referência intelectual para estudiosos da África no Brasil.

Este livro, voltado para o público infantil e juvenil, é, portanto, bem vindo como referência segura para a grande quantidade de lançamentos editoriais advindos da Lei 10.639, que instituiu o ensino de história da África e cultura afro-brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Logo no início, a narrativa aponta para a grande chave da história, protagonizada por Inácio, Zezinha e Gustavo: a trajetória do passeio. Na construção simples de um relato de viagem, os três adolescentes, enquanto percorrem a África Atlântica e o Kenia, nos trazem informações em forma de diálogo. Com discreto distanciamento acadêmico, a narrativa acaba por nos revelar que a chegada de africanos significou uma importante contribuição civilizatória para a formação do Brasil.

Viagens ao exterior ajudam-nos a conhecer as influências da própria cultura e a olhar para a terra natal por uma perspectiva diferente. Em outras palavras, uma viagem ao exterior ajuda a abrir horizontes e educa. Atualmente, no entanto, em época de extreme games, desafio aos limites, interatividade e intensificação das identidades, como tornar essa assimilação cultural desejável? Costa e Silva acerta em cheio quando propõe aos três adolescentes um passeio pela África através de um audacioso roteiro.

As ilustrações de Rodrigo Rosa seguem o percurso da viagem, com uma proposta em técnica de pastel e cores vivas, que dão divertida expressão às personagens e à narrativa.

A edição publicada não contribuiu para a valorização da obra. O livro não apresenta cuidado editorial com diagramação e acabamento, toma a guarda como folha de rosto, inicia sem prefácio, está com as margens muito reduzidas e pouco favorece as ilustrações, tanto na paginação quanto na escolha do papel.

Ao terminar a leitura da obra, procurei um mapa para marcar o trajeto dos personagens, tomando notas de todos os pontos de interesse. E, no final, o que fica é a certeza de que essa é uma viagem que vale a pena ser feita!

O presente de Ossanha - resenha - Letra Falante

O presente de Ossanha
Texto: Joel Rufino dos Santos
Ilustração: Maurício Veneza
Editora: Global
ISBN: 8526010913
Ano: 2006
Nº de páginas: 16
Formato: 21 x 24

Maira Landes

“O segredo da felicidade é a liberdade. O segredo da liberdade é a coragem.”
Tucídides - historiador grego


Canto de Ossanha

A liberdade tem voz? Tem vez? Canta? Tem cor? Se escreve com letra maiúscula como o nome próprio? Quanto custa a liberdade? Dá para comprar? Tem preço, tem prazo, dói? E a amizade, se compra, se vende, se esquece? Também pode escravizar, o amor?

Sim. Questões que nos provoca O presente de Ossanha, de Joel Rufino dos Santos, carioca, historiador, professor universitário do Curso de Letras da UFRJ.

Através da amizade que nasce entre dois meninos, num Brasil de mais de cem anos atrás, vamos nos deparar com o tema da escravatura no país, com as conseqüentes relações sociais, com a cultura que nos chega via África, com o folclore nacional e com os afetos em questão. Um Brasil branco e preto, de açúcar e escravidão.

Um dos meninos se chama Ricardo, é filho do proprietário do engenho e o outro se chama, ou melhor, é chamado de moleque, pois tinham esquecido o seu nome, assim como queriam esquecer de onde vinha. África também foi um nome escrito com letra minúscula até bem pouco tempo atrás, neste Brasil. Moleque é escravo comprado no mercado para brincar com o filho do dono, mas este senhor ignora que, para criança, brincar é coisa séria e os dois descobrem, brincando, o teor das profundas ligações.

Um dia, ao se perder no mato à procura de passarinhos, moleque encontra Ossanha, que lhe presenteia com um pássaro cora, o qual possui um lindo cantar. Moleque se perde no mato e encontra o canto da liberdade através de Ossanha.

Moleque se liberta da escravidão interna e encanta todos, que querem comprar a maravilha impagável, a liberdade. Até mesmo seu dono não o convence a vender seu pássaro raro. Então, vende moleque, para desespero de Ricardo, que há muito percebera ser ele o escravo entre os dois, dependente do afeto que nutria por moleque.

Cotejando a multiplicidade dos significados da escravidão, ora político, ora afetivo, ora factual, Joel e Maurício Veneza, o ilustrador do livro, nos trazem os deuses da África, que na fala de meu filho de seis anos, me diz:

- Ossanha parece índio, mamãe, mas não é.

Tanto as questões africanas, quanto as indígenas, estiveram relegadas a um plano menor; às vezes mescladas, sobrepostas, pouco conhecidas nas suas origens, desdobramentos e assimilações.

Demarcar os contornos, apontar as margens, definir territórios, visualizar nuances, ampliar o desconhecido, questionar o estabelecido e mexer com o afeto. Eis algumas motivações para ler O presente de Ossanha, canto sedutor de autêntica sensibilidade, que nos remete ao dever diário, exercício um tanto esquecido, de revisão das delimitações e potências de nossas escravidões e liberdades.

O Rei Preto de Ouro Preto - resenha - Letra Falante

O Rei Preto de Ouro Preto
Texto: Sylvia Orthof
Ilustração: Rogério Borges
Editora: Global
ISBN: 8526008757
Ano: 2007
Nº de páginas: 24
Formato: 18 x 26

Mariucha Rocha

Quem lembra de Chico Rei?

O livro trazido a público em 2007, ano em que se completavam dez anos da morte de Sylvia, é uma edição cuidadosa. O texto é acompanhado de ilustrações de Rogério Borges, o que o diferencia dos muitos outros da autora, em sua grande maioria, ilustrados por Tato, seu marido.

O artista emprega a arte digital, com gravuras de impacto visual que bem complementam o texto, agregando-lhe força.

Dentre as narrativas de Sylvia, este é o único trabalho publicado com temática histórica, o que, novamente, o diferencia dos demais, sem perder suas características de humor, poesia e ludicidade.

O relato se inicia com o “Lembro e esqueço...”, talvez numa alusão à (não) memória de nossa história, e segue com o “Invento o que não sei”, para marcar a liberdade que a criação literária permite. O “Era uma vez...” é a partida para pincelar idéias, opiniões e relatos sobre a trajetória dos negros no Brasil.

Na figura lendária de Chico Rei, Sylvia estabelece o elo da narrativa, desde o Continente Africano até a escravidão em Minas Gerais. A autora expressa sua opinião, em defesa da liberdade e igualdade entre os homens, ao escrever “Se a história eu retorço, é porque pro Chico Rei garanto que eu sempre torço!”

O texto dá cores ao Continente Negro: “ai que belas aquarelas” e também descreve seu povo genericamente como “(...) gente negra e valente, gente que dança e canta no sorriso do contente”. Com a chegada dos veleiros, trazendo homens brancos e ferozes, Sylvia deixa fluir o seu humor ao dizer que, no susto, “As zebras corriam longe, perdiam suas listras na corrida! Você duvida?”

Fala da escravidão “(...) prendeu os negros e o rei com correntes tão cruéis!” e reflete sobre a Igreja - passiva ou ativa? - “Iam ver o Chico Rei?... Os sinos diziam: não... sim... sim... não... balalim de balalão! Sei não!”

Sei sim! Seu texto é lírico, gostoso de ouvir, bom de repetir e ótimo para despertar discussões e opiniões nos pequenos.

A semente que veio da África - resenha - Letra Falante

A semente que veio da África
Texto: Heloisa Pires Lima, Georges Gneka, Mario Lemos
Ilustração: Véronique Tadjo
Editora: Salamandra
ISBN: 8516043487
Ano: 2005
N° de páginas: 56
Formato: 26,5 x 20,5

Vânia Salek

A África das árvores gigantes

Para falar de uma árvore, a gaúcha e antropóloga Heloísa Pires Lima convidou o moçambicano Mário Lemos e o marfinense Georges Gneka. Juntos, os três escreveram A semente que veio da África, um livro que traz textos informativos e de ficção, independentes entre si, o que significa que podem ser lidos em qualquer ordem. As ilustrações ficaram a cargo da também marfinense Véronique Tadjo, residente na África do Sul.

Mas, afinal de contas, que planta é essa, capaz de merecer a atenção de quatro artistas de três países e dois continentes? Trata-se, nada mais nada menos, da “árvore da palavra”. Ou da “árvore de onde se colhem histórias”. Ou, ainda, da “árvore da sabedoria”.

Baobá, embondeiro, adansônia: uma árvore gigante, encontrada em quase todo o Continente Africano ao sul do Saara, a servir de elo de união entre povos de línguas, hábitos, religiões e culturas tão diversos quanto os nomes que lhe emprestam.

Cada um dos autores escreve três textos diferentes, cabendo os dois iniciais a Heloísa Lima. No primeiro deles, ela conta como surgiu seu interesse por essa árvore e convida os leitores a colher histórias como se colhem frutos. Logo a seguir, a autora dá início a uma narrativa poética, pontilhada de onomatopéias, na qual conta a história de como “duas sementes bem pequenininhas” viajaram por grande parte do continente africano para se transformarem em dois gigantes. Mas, para contar a história do primeiro gigante, Heloísa Lima passa a palavra a Georges Gneka, nascido em Abidjã, capital da Costa do Marfim.

O autor marfinense, então, conta a história do baobá e do motivo de sua estranha aparência, à semelhança dos mitos de criação de nossos povos indígenas. E, provavelmente, semelhante a outros mitos, de outras partes do mundo, de outros povos que vivem integrados à natureza, e que transmitem, oralmente, valores, tradições e ensinamentos, de geração em geração.

Em seguida, em “O baobá e eu”, Gneka fala das visitas que fazia, quando menino, às diferentes aldeias onde ainda viviam seus avós paternos e maternos, ressaltando a importância das conversas e histórias que ouvia. Importância tanto para sua compreensão do mundo, quanto para seu próprio destino:

(...) um dia, sentado debaixo de um baobá, ouvi uma tia dizer:

- Esse menino vai nos deixar e vai viver do outro lado da água (mar) e talvez não volte tão cedo para nós.

Ao terminar a faculdade, Gneka viajou para Gana, depois Nigéria, Salvador e, finalmente, São Paulo, onde se radicou.

De Moçambique, país situado do outro lado da África, Mário Lemos toma a palavra para falar do embondeiro. Primeiramente, em meio a uma narrativa sobre sua própria vivência, conta duas karingana (fábulas) a respeito da árvore. Depois, em “O embondeiro, o njingiritane e eu”, mostra como sua trajetória de vida e o seu próprio nome estão intimamente vinculados às karingana ua karingana.

Agora é de novo a vez de Heloisa Lima dar o seu recado. “A mesma árvore e seus muitos nomes” abre espaço para a autora falar sobre botânica, sobre a origem dos nomes científicos, sobre as utilidades da adansônia e sobre muitas outras coisas que aprendeu sobre ela. Seguem-se algumas páginas com belas fotografias da famosa árvore. Na última página, Heloisa agradece e cita os nomes das pessoas que a ajudaram nas pesquisas e na elaboração do livro.

Finalmente, Gneka e Lemos relembram jogos de sua infância e falam sobre eles. As regras de um dos jogos (awalé), por serem um pouco mais detalhadas, acompanham o livro sob a forma de encarte.

Nas belas e expressivas ilustrações de Véronique Tadjo, observa-se a predominância de cores vibrantes, em desenhos inspirados nas artes gráficas tradicionais do continente africano, alternando formas geométricas e outras mais sinuosas, assim como o livro alterna textos informativos e ficcionais. É nesse aspecto que se sustenta a relação entre texto e imagens, e não na representação figurativa do que está sendo lido. Assim, as ilustrações reforçam e ampliam um leque de diferentes vivências, cujo elemento de união é o baobá/embondeiro/adansônia.

A semente que veio da África é um livro muito bem feito do ponto de vista gráfico, com ótima impressão de cores, facilitada pela boa qualidade do papel utilizado. A distribuição harmoniosa e equilibrada de texto e ilustrações agrada aos olhos. O formato do livro e sua capa bonita e colorida facilitam o manuseio e convidam à leitura.

II) De autores estrangeiros

A África, meu pequeno Chaka... - resenha - Letra Falante

A África, meu pequeno Chaka...
Texto: Marie Sellier
Ilustração: Marion Lessage
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar
Editora: Companhia das Letrinhas
ISBN: 9788574063249
Ano: 2006
Nº de páginas: 48
Formato: 21 x 27

Mariucha Rocha

História e Arte

Esta é uma edição em que a arte das palavras está perfeitamente conjugada com a arte visual. O livro conta com boa tradução do original em francês. As ilustrações são em nuances de tom ocre, complementadas por máscaras e esculturas que se encontram em museus de Paris. A impressão em papel de tonalidade sépia contribui para uma identificação da cultura africana.

O texto está estruturado de forma a que se perceba a importância da oralidade na transmissão das informações culturais de um povo, característica marcante na cultura africana, assim como na cultura indígena e nos contos e recontos de lendas e fábulas. É desenvolvido sob forma de pequenas histórias narradas pelo avô, a partir da curiosidade de seu neto, o Chaka, que o admira e o vê como sendo “alto como o Baobá e mais sábio que o Marabu”. As respostas dadas pelo avô deixam abertas portas para novas perguntas, sugerindo continuidade.

O avô, nas palavras da autora, discorre sobre sua ancestralidade, suas relações familiares e de amizade, que se mesclam com a cultura, hábitos, magias e mitos de seu povo.

Sempre respondendo a perguntas da criança, o avô relata: “O início, meu pequeno Chaka, ah! foi há muito tempo! Bem antes de mim“. Reflete sobre a morte e conclui: “um dia, meu pequeno Chaka, também irei para o país onde o sol não se põe, o país dos ancestrais“. O sábio diz ao neto que este, dele sempre lembrará e que repetirá todas essas histórias para seu próprio neto. E, do lugar onde estiver, diz o avô: “rirei de felicidade”.

As reticências empregadas no título do livro parecem sugerir a infinidade de relatos que podemos ter sobre o continente africano, sobre a História. Como curiosidade, o livro tem os seus direitos reservados às Èditions de la Reunion des musées nationaux de Paris. E, como trabalho artístico, bem que o merece.

Histórias de Ananse - resenha - Letra Falante

Histórias de Ananse
Texto: Adwoa Badoe
Ilustração: Baba Wagué Diakite
Tradução: Marcelo Pen
Editora: SM
ISBN: 8576751356
Ano: 2007
Número de páginas: 96
Formato: 20,5 X 27

Barbara Andersen

Uma teia de histórias

A escritora Adwoa Badoc reconta as histórias que ouviu de sua mãe, em sua terra natal, Gana, sobre a aranha Ananse. Antes de cada um dos dez relatos, Baba Wague Diakite produz uma ilustração de página inteira, feita com cores vibrantes, que retrata Ananse num corpo de aranha, com rosto, mãos e pés humanos. Como aranha, tece, urde as coisas para alcançar um determinado objetivo, mas, como homem, mete os pés pelas mãos.

Na primeira história, Ananse é um fazendeiro que trabalha com seus filhos. Quando a produção de alimentos escasseia, as reservas da família começam a desaparecer à noite. Quem estaria a roubá-las? Ao cair na armadilha colocada pelos filhos para pegar o ladrão, Ananse sente-se extremamente envergonhado. Então, corre para um canto, onde faz sua teia e esconde sua vergonha. Embora a tradição de Ananse não tenha chegado ao Brasil, o boneco de piche, no qual a personagem ficou presa e foi desmascarada, faz parte de nosso folclore.

Na segunda narrativa, um dos filhos de Ananse desaparece durante uma grande estiagem. Quando Ananse perde as esperanças de encontrar seu filho com vida, este retorna e conta como conseguiu um pote mágico. Ele é pequeno, mas produz comida em abundância. Ananse vai ao local para conseguir um pote maior e mais precioso. Acha que vai se dar bem, porém, no final, sua ganância e malícia de nada lhe valem, e ele acaba humilhado. Volta a se esconder na sua teia num canto escuro.

No terceiro relato, Ananse quer ser lembrado como o dono das histórias. Quando o rei sabe de sua pretensão, pede-lhe que prove sua bravura. Ananse consegue, com sua sagacidade, capturar com vida uma família inteira de abelhas, um gnomo e uma piton e, assim, é lembrado para sempre por aqueles que contam histórias.

Em todas as outras narrativas, Ananse se mete em enrascadas, mas sempre encontra uma maneira de agir com astúcia e passar a perna em seu adversário. Nem sempre se dá bem. Às vezes, as histórias explicam “o porquê das coisas” e, às vezes, dão lições de vida.

No final do livro, há um mapa da África que destaca os países do lado Ocidental. Explica quem foi o povo axante, fala das personagens nas histórias contadas em Gana, e apresenta algumas tradições e costumes dos povos na costa oeste.

No nosso folclore existe a figura de Pedro Malasartes, personagem tradicional de contos populares da Península Ibérica. Assim como Ananse, Malasartes é astuto, cheio das artimanhas, sedutor e cínico.

Os sete novelos: um conto de Kwanzaa - resenha - Letra Falante

Os sete novelos: um conto de Kwanzaa
Texto: Ângela Shelf Medearis
Ilustração: Daniel Minter
Tradução: Lílian Jenkino
Editora: Cosac Naify
ISBN: 8575033921
Ano: 2005
Nº de páginas: 40
Formato: 20 x 25,5

Mariucha Rocha

Uma fábula afro-americana

A autora escreve uma fábula com influência da cultura africana, o que, junto às ilustrações do pintor e escultor Daniel Minter, resulta uma boa edição.

A história se passa numa aldeia do país de Gana, onde uma família com sete filhos órfãos de mãe vive em desarmonia entre si, o que causa grande decepção ao pai. Quando morre o pai, o chefe da aldeia administra a herança que foi deixada, sob condições: os filhos teriam que transformar sete novelos de fios de seda em ouro, caso contrário perderiam os bens para os aldeões. Os irmãos fazem um acordo de paz e, em conjunto, buscam soluções. Observam os hábitos do povo e conseguem criar e produzir um tecido que desperta a atenção do tesoureiro do rei. Em troca do tecido, recebem uma sacola de ouro e, com isso, a herança. O filho mais novo não se alegra, pois percebe que seu povo nada receberá. Como solução, propõe que os aldeões sejam ensinados a tecer, para que também consigam transformar fios em ouro.

As imagens de Daniel Minter, com ênfase no vestuário, seus tecidos trançados e cores vivas, valorizam o texto com a adequação da técnica da xilogravura.

Ao final do livro, a autora sugere uma atividade para se tecer fios ao estilo dos tecidos de Gana, usando com isso um dos sete princípios do Kwanzaa. O Kwanzaa é uma manifestação cultural criada em 1966, por Maulana Karenga, membro do Departamento de Estudos Negros da Universidade do Estado da Califórnia, com o propósito de unir os afro-americanos de sua comunidade. Esse evento está baseado em sete princípios, que deveriam ser memorizados e postos em prática não só durante os sete dias de comemoração do Kwanzaa, como também pelo resto do ano.

Apesar de ser apresentado na introdução do livro como um feriado celebrado no mundo inteiro por pessoas de ascendência africana, essa manifestação cultural não tem expressão na comunidade negra brasileira.

A autora tem vários livros publicados nos EUA e se baseou nos sete princípios do Kwanzaa para desenvolver seu conto, deixando ao leitor a tarefa de procurá-los e identificá-los no texto.

Ao fazê-lo, devemos estar atentos ao conteúdo dos sete princípios e seus símbolos, que podem expressar uma realidade muito específica da sociedade norte-americana, que tendemos a incorporar. O princípio da cooperação não precisa, necessariamente, ser associado ao de enriquecimento. Um dos sete símbolos que ilustram esses princípios, o Zawadi ou “presentes“, coloca em questão o princípio da Fé, o Imani, e nos reporta à descaracterização das festas católicas, que também se tornaram uma celebração do consumo.

Tranças de Bintou - resenha - Letra Falante

Tranças de Bintou
Texto: Sylviane A. Diouf
Ilustração: Shane W. Evans
Tradução: Charles Cosac
Editora: Cosac Naify
ISBN: 857503300X
Ano: 2004
Nº de páginas: 32
Formato: 21,5 x 27

Carol Sanches


“A beleza a todo instante se refaz, dos olhos que a contemplam”.
Guimarães Rosa

Que olhar é esse que jogamos sobre a África? África da singularidade na multiplicidade. Imensa na extensão, intenção e intensidade. Do excesso e da exceção. Do abundante e do escasso. África da polifonia. Da lágrima clara sobre a pele escura, como a frase do poeta. Do sorriso marfim. África do belo.

Como ter olhos de contemplação sobre as Áfricas? Onde está o belo? Hora de ressignificá-lo.

Sendo guiados pelas mãos de uma menina de pés descalços, cabelos crespos e quatro birotes na cabeça, somos convidados a apurar o nosso olhar e rever a questão da estética. As tranças de Bintou, de Sylviane A. Diouf e ilustrada pelas cores vibrantes de Shane W. Evans traz à tona a força da mulher africana. Sua vez e sua voz. Através de uma narrativa simples, as palavras de Sylviane e as imagens de Evans se trançam, lançando para nós a reflexão sobre o nosso referencial de beleza.

Bintou é uma menina fascinada por cabelo e tem um sonho: usar trança. “Meu cabelo é curto e crespo. Meu cabelo é bobo e sem graça. Tudo que tenho são quatro birotes na cabeça”. Abrimos o livro com o reflexo de Bintou na água. E não é só ela que vê reflexos. Um olhar mais atento percebe que o livro todo é um reflexo do que vemos. E do que somos.

Em uma sociedade que valoriza estereótipos europeizados, que segrega, reconhecer beleza em quatro birotes é um desafio. Romper com o senso comum, apurar o senso estético e se banhar nas tradições hoje é uma ousadia. Ousadia que Bintou possui. De jogar na mesa a discussão de que no crespo há beleza. No escuro, nas cores vibrantes, na negritude da pele. Nas pedrinhas do cabelo, birotes e tranças. Esse é um dos trunfos do livro: podermos repensar o Brasil através dos costumes africanos. E não é por acaso que esse livro só foi editado no Brasil e na França: são questões do nosso povo, questões de identidade.

Entender a raça, de onde viemos, quem somos, forma identidade. Nesse Brasil de Bintous, é preciso pensar nas tranças que fazemos e desfazemos. A beleza se refaz pelos olhos de quem as contempla.

III) De autores estrangeiros, obras publicadas fora do Brasil

Falando Banto - resenha - Letra Falante

A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores das nuvens: guerra para crianças
Texto: José Luandino Vieira
Ilustração: José Luandino Vieira
Editora: Caminho
ISBN: 9722118390
Ano: 2006
Nº de páginas: 28
Formato: 21 x 28

Ninfa Parreiras

A guerra que virou palavras

Uma obra não publicada no Brasil, mas que merece nossa atenção é A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores das nuvens: guerra para crianças, do autor angolano, de origem portuguesa, José Luandino Vieira. Publicada em Portugal pela Editora Caminho, traz texto e ilustrações de Luandino, que participou do movimento de libertação nacional da República Popular de Angola. Em sua única obra dedicada ao público infantil, o autor mostra um confronto entre bichos e humanos. Um conflito entre criadores e consumidores. Entre fazedores e caçadores. A morte de um rio. Seria uma fábula? Um conto? Um poema? Até nesses problemas conceituais da literatura, o texto de Luandino escapa a classificações e rótulos: é uma obra singular, única, poética.

Em seis capítulos, a narrativa enxuta, em forma tradicional angolana, cheia de sonoridades, mostra os embates entre os donos da terra e os de fora, entre invadidos e invasores. Uma denúncia bem contemporânea e propícia à reflexão e ao debate sobre o meio ambiente e o autoritarismo, entre as crianças e os adolescentes. E a guerra, mais que tudo, é um jogo de forças, de poderes, assim como a literatura é também jogo, mas de palavras, de sentimentos.

Como se fossem versos, o texto se apresenta em forma de um mussosso da Angola, uma espécie de relato da oralidade, condensado, com predomínio de ações e de musicalidade na linguagem. Ele faz parte da obra De rios velhos e guerrilheiros: o livro dos rios, romance publicado também em Portugal pela Editora Caminho, em 2006. As palavras regionais são preservadas, como Mbunda, Kipakasa, o que empresta uma estética sonora ao texto. Mesmo que um leitor brasileiro não reconheça alguns vocábulos, o contexto ajuda a leitura e há um glossário ao final da obra.

Os desenhos, contornados com lápis preto, reproduzem cenas, animais, armas e demais objetos, alguns já vistos nas guardas do livro, que trazem os esboços das imagens depois coloridas e ampliadas. Neles, além da presença do cotidiano, de temas da terra, há a presença do maravilhoso, representado pelos animais e alguns monstros. O grafismo é a marca das ilustrações de Luandino, com o registro de imagens repletas de representações simbólicas. O fundo e o colorido de cada desenho são feitos por riscos que lembram uma tecelagem de fios, de palavras. Afinal, um texto é uma tecelagem das palavras. E a obra de Luandino é toda artesanal!

Quanto à linguagem, o fantástico atravessa os diálogos e dissolve o clima de tensão entre as forças opositoras. O texto tem a sonoridade de uma canção, marcado por cortes, em forma de versos:

“10. Mbunda ia Kibaia nunca mais fez chover; o sangue
da guerra virou lama; e a lama virou pedra;
e a pedra, rocha de ferro;
11. O rio Kipakasa morreu; a terra repousou por fim;
E viram as crianças que tudo estava bem e recomeçaram
a crescer;
12. Guerras do cacimbo e da chuva, quem resolve é o jacaré.
Mahezu.”

Dá gosto ver uma obra tão poética e lúcida com os traços da cultura de Angola, com a linguagem marcada pela oralidade e os desenhos pelos símbolos e sinais da cultura popular. Lanças, instrumentos de batalha e instrumentos musicais se misturam a aves, bandeiras e tapetes para nos dizer que a África são tantas.

Para o deleite e a curiosidade do leitor, a editora reproduziu os manuscritos do autor, com cortes, correções, rabiscos, setas. São lindas e poéticas estampas dos manuscritos das palavras e dos desenhos de um escritor também ilustrador, que se mostra, como um criador, cheio de dúvidas, de não verdades. Bravo! Isso é literatura!

Se tentarmos seguir o processo de criação literária de Luandino, nos deparamos com um jogo de versos, um conflito do autor com a sua tecelagem. Para nós, uma constatação de que o exercício da escrita é artesanal e subjetivo. É cheio de vai-e-vem, sem linearidades. Recortado por nuances, por lacunas, por rios, que muitas vezes se secam, por coisas que se transformam... Como a guerra em lama, a lama em pedra, a pedra em palavra.

Jujube - resenha - Letra Falante

Jujube
Auteur: Anne Wilsdorf
Illustrations: Anne Wilsdorf
Editeur: Kaléidoscope, 1998
ISBN-10: 2211055346
ISBN-13: 978-2211055345
Product Dimensions: 7.1 x 5.8 x 0.2 inches

Emilia Machado

Doce diversão

O conto Jujube transcorre de maneira descomplicada, típica do agir das crianças. É um texto divertido e doce, que provoca a imaginação com rimas fáceis de ritmo ágil e a ilustração é caprichada em detalhes cômicos. A história recorre a características de ambientação africana, mas sem compromisso didático com o aspecto cultural. Como disse a autora, em entrevista, é uma África re-criada; o cenário todo, a fauna e as plantas foram um pouco inventados a partir do sentimento que ela guarda do seu lugar de nascença e que achou por bem trazer para esta obra.

A tarimbada Anne Wilsdorf tem no bom humor a força motriz de suas obras, na maioria, voltadas para crianças de até cinco anos de idade. Ela é de nacionalidade francesa, mas nasceu em Angola. Formada em Belas Artes, em Lausanne, na Suiça, onde mora, ela já viveu no Congo Belga (Congo), na Argentina e na Bélgica. Sua produção é vasta e conhecida em vários países. São dela, por exemplo, as ilustrações da coleção “O Rei dos Ogros”, da editora Escala Educacional, voltada para a alfabetização.

Mesmo sem o recurso à sua biografia, a experiência da autora é notável neste livro, porque ela consegue preservar o lugar da imaginação ao tratar de temas reais como a adoção e a aceitação do diferente, sem torná-los de tal forma visíveis que tomem o espaço da fantasia.

Aqui, onde o tema central é a adoção, uma menina encontra um bebê abandonado e decide levá-lo de presente de aniversário para a mãe. Só que o leitor ainda não sabe que a mãe da menina já tem nove filhos, e então, como será? O encanto da história está na liberdade e no coração aberto de uma família numerosa e de poucos recursos, ambientada na alegoria de uma África de vida simples e sem luxo.

Pouco importa quão imaginário seja o vilarejo rural africano ou as plantas, ou os nomes. A começar por Jujube, que dá título ao livro e é uma planta asiática e não simboliza qualquer coisa da cultura africana. A verdade é um fator muito importante nos contos infantis. A fantasia pode ser ampla, mas as crianças percebem quando há discrepância entre os personagens e suas atitudes. Em Jujube, a veracidade está nos valores de família como tal. A harmonia na casa e o aspecto de uma vida social solidária aparecem até em relação aos animais, nos desenhos.

Como se trata de um livro de ilustrações, grande parte da narrativa está contida nas imagens que são de um dinamismo tão grande que os olhos têm prazer de passear por elas e curiosidade em examiná-las. Os personagens apresentam sempre um sorriso nos lábios. A atmosfera é de alegria e a ambientação é familiar, repleta de elementos reconhecíveis pelos pequenos leitores em formação. A aceitação inter-racial é uma proposta que, por exemplo, está apenas na ilustração, onde a criança abandonada é branca e sua adoção é cogitada em uma família negra, de forma reversa àquela que nós estamos acostumados. Até os animais de diferentes espécies interagem em harmonia e compartilham da sorte da menina órfã.

No entanto, toda essa análise é para dizer que este livro não se enquadra na lista daqueles chamados de origem ou influência da cultura africana. Assim como acontece aqui no Brasil, os países estrangeiros sofrem com a tensão entre o tratamento comercial e o literário de suas publicações. Comercialmente, Jujube está inserido na lista de livros que tratam sobre cultura africana – explorando ainda mais o fator de a autora ter nascido na África. Porém, nos artigos de pedagogia e de análise literária, este livro é considerado por tratar dos temas do amor, da coragem, generosidade, aceitação, e outros relativos à adoção.

Yakouba - resenha - Letra Falante

Yakouba
Texto e ilustração: Thierry Dedieu
Editora: Éditions du Seuil
ISBN: 9782020214780
Ano: 1994
N° de páginas: 34
Formato: 33,5cmx23,5cm

Vânia Salek

O guardador do rebanho

O livro Yakouba, do escritor e ilustrador francês Thierry Dedieu, publicado em 1994 pelas Éditions du Seuil (França), é inédito no Brasil. Trata-se de uma obra de arte, capaz de deslumbrar adultos e crianças. Lamenta-se, apenas, que não haja qualquer informação sobre o autor.

O texto de Thierry Dedieu é bastante poético, com algumas rimas internas e ritmo musical, características marcantes dos contos transmitidos oralmente, entre tantos povos, ao redor de fogueiras, de geração a geração. O autor, porém, faz uso desses elementos tradicionais para questionar até que ponto certos costumes devem ser perpetuados apenas em nome da tradição.

Yakouba é um jovem em idade de se tornar guerreiro. Para isso, terá que se submeter a um rito de passagem: matar um leão e levá-lo para sua aldeia. Sozinho com sua lança, o jovem caminha “sous un soleil de plomb” (sob um sol de chumbo) e fica à espera, dia e noite, tentando “oublier la peur qui serre le ventre, qui transfigure les ombres” (esquecer o medo que lhe aperta o ventre, que transfigura as sombras). Subitamente, surge, em página dupla, a figura enorme do leão, com sua boca feroz. Mas o animal está machucado e seu olhar profundo propõe a Yakouba a seguinte escolha: matar um leão já ferido, num embate sem glória, ou deixar que a fera continue viva, saindo o jovem engrandecido perante sua própria consciência. Após refletir a noite inteira, Yakouba deixa o leão em paz. Ao regressar, é recebido pelo silêncio dos homens e designado guardador do rebanho, enquanto seus companheiros tornam-se guerreiros. Então, à margem da aldeia, onde Yakouba permanece, o gado deixa de ser atacado pelos leões.

Embora o conto de Thierry Dedieu, assim como outros contos tradicionais, também traga sua mensagem, esta é apresentada de maneira paradoxal: a desobediência à tradição é proposta num texto que guarda características da tradição oral.

Na defesa de territórios, costumes, dogmas, crenças, ortodoxias, guerreiros matam e morrem. Como um rebanho, seguem ordens de comando. Mas é Yakouba que, ao desobedecer à regra e optar pela vida, vai garantir a sobrevivência de seu povo: o gado, fonte de sustento e de alimentação daquela aldeia, não é mais atacado pelos leões.

O contraste dessas idéias se reflete também nas ilustrações, que privilegia o uso do preto e branco, tanto nas imagens quanto em algumas páginas, onde o texto, com letras brancas, é escrito sobre fundo preto. O livro, de capa dura em marrom e preto, tem um projeto gráfico primoroso, que valoriza a obra do artista. Na primeira capa, que traz apenas o título do livro, o tipo utilizado – uma espécie de carimbo artesanal – funciona, por sua singularidade, como uma assinatura do autor, cujo nome (assim como o da editora) aparece apenas na lombada e na quarta capa. As guardas do livro, que nos remetem tanto à padronagem típica da tecelagem africana quanto à pelagem de alguns animais nativos desse continente, mostram a intenção do artista em sugerir ao leitor a paisagem onde se passa a história.

As ilustrações, aparentemente feitas com tinta sobre tela, ora trazem informações novas, ora substituem o texto (como no momento citado acima, quando o leão aparece), ora expressam sentimentos. Os ângulos em que são mostradas as imagens, as proporções dos desenhos nas diferentes páginas, a ausência de sorrisos e as expressões fisionômicas enfatizam a tensão que perpassa toda a narrativa.

Tomara que alguma editora se interesse em publicar este livro no Brasil, com a mesma sensibilidade e cuidado da edição francesa original. Nossas crianças bem que merecem!