A Estação das Letras publica quinzenalmente a coluna O Lobo no Ar, escrita pelo jornalista e escritor Rogério Menezes. O autor tem três romances publicados: Meu Nome é Gal (Codecri, 1984), Três Elefantes na Ópera (Record, 2001) e Um Náufrago que Ri (Record, 2009) (acesse o blog http://umnaufragoqueri.blogspot.com).
Rogério Menezes, depois de bem-sucedidas passagens por jornais e revistas de Salvador, São Paulo e Brasília, mora no Rio de Janeiro (mais exatamente em Botafogo) desde abril de 2008. Por dois anos e meio (entre julho de 2000 e dezembro de 2002) publicou crônica diária no Correio Braziliense. A partir desses textos publicou o livro A Solidão Vai Acabar Com Ela (Versal Editores, 2003). Neste espaço o autor nos oferecerá uma visão sempre muito particular do viver contemporâneo, das cidades e dos seus habitantes.
O LOBO NO AR
(crônicas insanas & insones de Rogério Menezes)
Nota: o jornalista e escritor Rogério Menezes estará viajando pelo interior da Bahia até o final de 2009. Esses relatos de viagem, as Crônicas Interiores, estão sendo publicados no endereço http://blogdaconferencia.com e algumas dessas crônicas serão republicadas aqui no Lobo no Ar semanalmente.
A cura da senosite e o proustiano badoque
O mundo girou & a lusitana rodou, mas, tal & qual nas longínquas infâncias vividas nos anos 1960, garotos continuam matando lagartixas com badoques. O local que gerou esta conclusão: mercado tripartite alagoinhense, meio caidaço mas ainda fulgurante, onde farinhas, carnes e tapiocas disputam a atenção e, basicamente, os narizes do público. Lá conheci dona Nalva. Ela vende, na Barraca Padre Cícero, plantas e beberagens que jura ter capacidades curativas milagrosas (Que tenham!).
Uma das mais procuradas é, segundo me conta essa mulata inzoneira pra lá de balzaquiana, a bucha-paulista – prima em primeiro grau, mas em tamanho beeem menor, daquela bucha maior, e que ela também vende, e que precedeu o bombril, e que fazia sucesso entre as donas de casa de antanho no quesito arear-panelas-e-torná-las-mais-brilhantes. (Mas dona Nalva garante, a bordo de sorriso esplendoroso, que essa bucha gigante agora não serve mais para arear panelas e sim para limpar corpos: - Cê esfrega no corpo e a sujeira sai toda.)
Encantado com a cartela de produtos que Dona Nalva oferece, pergunto-lhe: - Serve pra quê a bucha paulista? Ela, sem titubear: - `Frevida` em água, cura `coquer senosite`.
Não que eu duvide do que a simpática dona Nalva garante a respeito da capacidade de a bucha paulista curar senosite, mas prefiro comprar, por 2 reais, proustiano badoque, que ela inusitadamente vende entre os mil e um remédios populares que negocia.
Não que tenha matado lagartixas com badoques na minha infância, mas tinha profunda admiração, e inveja, dos garotos que cometiam essa peraltice sem culpa alguma. Eu – e isso nunca me garantiu, nem me garantirá, lugar algum no céu – tinha pudores. Achava que matar lagartixas me levaria diretamente para o inferno. Sem escalas.
Badoque adquirido e enfiado na sacola, mergulho no mar de cheiros do lugar (o mercado de carne & farinha & tapioca, no centro de Alagoinhas). Sorvo então com avidez outro néctar, tão proustiano quando o badoque, e que também me faz voltar no túnel do tempo em questão de microssegundos: o odor de farinha-de-mandioca (ou de farinha-de-guerra) que emana do lugar. Resultado: a infância voltou desabrida, a galope, serelepe, alegre – e, não fosse o meu superego sempre alerta (e ainda bem que tenho superego sempre alerta), teria saído a saltitar e cantarolar tal & qual Julie Andrews em A Noviça Rebelde.
Poucos metros depois, deparo com a barraca do senhor Artur. Ele vende aqueles sabões rústicos, chamados ontem e ainda hoje de sabão-anil, com pintas azuis e cheiro levemente doce (e inesquecível) que o meu pai costumava vender na venda que possuía no Mercado Municipal, 22, em Jequié, em tempos idos.
Na sequência de memórias, puxo do baú outro tipo de sabão que precedeu o uso massivo do sabão em pó, e que as donas de casa e lavadeiras de beira de rio do interior da Bahia de antanho usavam na lavagem de roupas: o sabão-massa.
Pergunto ao senhor Artur se o sabão-massa ainda é fabricado. Ele diz que, pelo menos em Alagoinhas, não mais. Puxa então dois dedos de prosa, e conta história triste: os dois homens que fabricavam e forneciam esse produto na região morreram há algum tempo, e do mesmo mal: - Eles se chamavam Lulu e Vavá. Morreram de tanto mexer naqueles grandes caldeirões nos quais aspiravam aquela mistura quente e venenosa de soda cáustica, breu e sebo, produtos básicos na fabricação do produto. Que Deus os tenha em bom lugar!
Amém, senhor Artur, amém!
Circulo mais pelo lugar, e a overdose de cheiros fortes e nostálgicos quase me embriaga (linguiças gordurosas feitas in locum; camarões secos de todos os tamanhos; tapiocas recheadas com coco; oscambau). A ponto de sair para a rua meio tonto, sem saber ao certo para onde devo ir.
Respiro fundo, retomo o fôlego perdido, e sei ao certo para onde devo ir: as ruínas mais famosas da cidade: 1) as da estação ferroviária de São Francisco, em estilo art-déco, inaugurada em 1980, e hoje caindo aos pedaços – num crime de lesa-patrimônio inafiançável. 2) as da igreja de Santo Antonio, em Alagoinhas Velha, que, ainda em construção, foi abandonada, no final do século 19, e hoje tenta resistir ao tempo como pode – num outro crime de lesa-patrimônio inafiançável.
Apesar da dedicação de Dona Iraci Gama – (professora de português queridísima e profunda conhecedora da história da cidade que se dedica diuturnamente à missão de fazer com que esses notáveis monumentos históricos não sumam completamente do mapa) – esses tesouros históricos vivem neste exatíssimo momento ao mais inexorável deus-dará. (Dá um nó no peito vê-los do jeito que estão: cadáveres insepultos expostos à luz do sol e dos abutres).
Diante desses cadáveres insepultos expostos à luz do sol e dos abutres engulo o choro: lembro os cheiros e as iguarias de antanho que continuam avassaladores no mercado de carnes & farinhas & tapiocas do centro da cidade de Alagoinhas, e sigo em frente. (Por que não? Por que não?)
Email para o autor: rogerio_menezes@uol.com.br