A Estação das Letras publica quinzenalmente a coluna O Lobo no Ar, escrita pelo jornalista e escritor Rogério Menezes. O autor tem três romances publicados: Meu Nome é Gal (Codecri, 1984), Três Elefantes na Ópera (Record, 2001) e Um Náufrago que Ri (Record, 2009) (acesse o blog http://umnaufragoqueri.blogspot.com).
Rogério Menezes, depois de bem-sucedidas passagens por jornais e revistas de Salvador, São Paulo e Brasília, mora no Rio de Janeiro (mais exatamente em Botafogo) desde abril de 2008. Por dois anos e meio (entre julho de 2000 e dezembro de 2002) publicou crônica diária no Correio Braziliense. A partir desses textos publicou o livro A Solidão Vai Acabar Com Ela (Versal Editores, 2003). Neste espaço o autor nos oferecerá uma visão sempre muito particular do viver contemporâneo, das cidades e dos seus habitantes.
O LOBO NO AR
(crônicas insanas & insones de Rogério Menezes)
As belas da tarde Catherine Deneuve e Catarina
Azia? Mal-estar? De mal com o mundo que sempre teima em lhe cair sobre a cabeça? Indisposição estomacal? O chefe insiste em provar que você é um zero à esquerda? Aquela bela mulher (ou aquele belo homem) que você cobiça o olha como se fosse o mais verme dos vermes? A vida está colossal e retumbante merda? Não se desespere. Talvez possamos adiar sine die (ou cancelar de vez?) aquela idéia macabra de apertar o gatilho e apontar para a própria cabeça.
Que tal, caro leitor, assistirmos a um filme e mergulharmos naquele lusco-fusco embriagador do escurinho do cinema? Trata-se, garanto-lhe, do mais sublime simulacro de útero materno que Deus (ou quem de direito) nos pôs à disposição neste vale de lágrimas no qual nos afundamos há séculos e séculos, amém.
No caso da impossibilidade real de retrocedermos aos nossos úteros maternos, os quais fizemos a besteira de abandonar, ou melhor, dos quais fomos expulsos, ouça bom conselho: tarde dessas (quando os cinemas costumam estar meio vazios e, portanto, mais próximos da uterinidade almejada), esqueça tudo que o apoquenta, tudo que o inferniza, e vá fundo, let it be: esparrame-se nas cadeiras; permita que as imagens, as luzes e as sombras o devorem e o arranquem, por duas fugazes horinhas que sejam, deste vale de lágrimas.
É possível que este cronista tenha passado cerca de um quinto dos seus 55 anos imerso em algumas dessas salas escuras. Sim, gosto do bom cinema. Amo Luis Buñuel, Federico Fellini, Pedro Almodóvar, Ingmar Bergman (e dezenas de outros cineastas geniais). Sei a diferença entre Marlon Brando e Mickey Rourke; entre Lauren Bacall e Charlize Theron. Sou capaz de escrever pencas de artigos presumivelmente profundos recheados de notáveis citações cinematográficas. Mas posso lhe contar um segredo?
Gosto mais (e que Charles Chaplin e outros santos da tela me perdoem) da sala escura, com aquele lusco-fusco fantasmagórico mas reconfortante, do que dos filmes. Meio assim: gostar mais da caixa que guarda aquele precioso chocolate suíço do que do próprio precioso chocolate suíço.
Devo ter assistido ao filme A Bela da Tarde, do espanhol Luis Buñuel, no extinto Cine Capri, em Salvador, nos idos dos anos 1970, mais de cinqüenta vezes. Claro, essa obsessão se deveu em parte à presença sublime de Catherine Deneuve. Em parte, repito. A verdade é que, ao chafurdar-me nessas, digamos, placentas lambuzadas de luzes e sombras, vivi alguns dos momentos mais inebriantes da minha vida – e, honra ao mérito, esses momentos inebriantes da minha vida foram milhares – e talvez esses milhares de momentos inebriantes me permitiram estar agora escrevendo estas sandices, e não calcinado, e com uma outrora-boca cheia de formiga, sob sete palmos de terra em algum jardim da saudade do planeta.
Por acreditar nessa fantasia (a sala escura do cinema como a reedição mais possível do útero materno), passou várias vezes pela minha cabeça comprar uma dessas salas escuras de cinema, sempre com um filme em exibição, e nela construir meu lar-doce-lar. Dividiria o espaço em quarto de dormir, sala de estar, sala de jantar, sala de ler, cozinha, banheiro e, claro, longa parede onde colocaria estante na qual todos os livros fossem de Dostoiévski, Balzac, Flaubert, Faulkner, Tolstoi, Philip Roth, Orhan Pamuk, Amós Oz, Graciliano Ramos, Mario Quintana, Manoel Bandeira, e, quase me esquecia, Machado de Assis e A Bíblia, sempre aberta no Eclesiastes.
(Ah, sim: não me atormentaria em ficar especulando se as pessoas que me visitavam iriam realmente me visitar ou para assistir a algum filme. Nessa casa idílica, as pessoas seriam nada mais nada menos que paisagens).
Por isso roí-me de inveja quando conheci Catarina. Respeitável senhora, entrada em anos, fez desse eterno lusco-fusco da sala de cinema o lugar onde mora, passeia, dorme, janta, e, basicamente, circula ao redor das pernas dos visitantes que a mimam e a paparicam.
Catarina, caro leitor, é a gata gorda e feliz que habita o cine Estação Botafogo, localizado na Rua Voluntários da Pátria, 88, neste Rio de Janeiro.
Não estranhe, caro leitor, se, dia desses, eu e Catarina formos flagrados ronronando juntos sob as cadeiras não exatamente macias desse lugar.
Email para o autor: rogerio_menezes@uol.com.br