A Estação das Letras publica quinzenalmente a coluna O Lobo no Ar, escrita pelo jornalista e escritor Rogério Menezes. O autor tem três romances publicados: Meu Nome é Gal (Codecri, 1984), Três Elefantes na Ópera (Record, 2001) e Um Náufrago que Ri (Record, 2009) (acesse o blog http://umnaufragoqueri.blogspot.com).
Rogério Menezes, depois de bem-sucedidas passagens por jornais e revistas de Salvador, São Paulo e Brasília, mora no Rio de Janeiro (mais exatamente em Botafogo) desde abril de 2008. Por dois anos e meio (entre julho de 2000 e dezembro de 2002) publicou crônica diária no Correio Braziliense. A partir desses textos publicou o livro A Solidão Vai Acabar Com Ela (Versal Editores, 2003). Neste espaço o autor nos oferecerá uma visão sempre muito particular do viver contemporâneo, das cidades e dos seus habitantes.
O LOBO NO AR
(crônicas insanas & insones de Rogério Menezes)
Homens que mijam no jardim do Éden
A psicanálise não simpatiza com a ideia de acaso. Crê: resultamos de escolhas conscientes e inconscientes. Há controvérsias. Creio: haverá sempre dose de imponderabilidade que Sigmund Freud e seguidores não quiseram cogitar. Arrisco-me a dizer: acasos e escolhas se beijam na boca, trocam carícias, e se interpenetram. Esse eterno interpenetrar-se talvez explique o show de horrores que, por livre e espontânea vontade (se é que essa expressão terá alguma legitimidade), presenciei nos últimos dias.
Show de horrores (SdH) 1: No meio da tarde, assisti Katyn, de Andrzej Vajda. É mergulho sem firulas no banho de sangue que russos e alemães submeteram os poloneses durante a segunda guerra mundial. Diagnóstico óbvio: homens assassinados com tiros na nuca e empurrados em covas coletivas não são exatamente evidências da viabilidade da espécie humana.
SdH 2: Em tentativa de zerar o cérebro, zapeava pela tevê cabo. Cansado de apertar teclas, me concentrei em programa jornalístico. Tema: pedofilia na internet. Pensei em continuar zapeando, mas não: vontade em mergulhar ainda mais fundo no lodo no qual mergulhamos foi mais forte. Quase vomitei quando soube de avô que molestava sexualmente o neto de 18 meses (e ele não era, nem é, sabemos, o único vovô a cometer esse tipo de desatino mundo afora).
Moral da história: não há limites para a insanidade humana. (Ok, pedófilos não são pedófilos por que querem, mas sim porque força sexual descomunal os invade e os arrebata – mas que raios de Deus, ou quem de direito, é esse que concebe criaturas assim?).
SdH 3: Noite seguinte. Aguardava o começo do segundo capítulo da nova temporada de Brothers & Sisters (novelão americano imperdível que revela as diatribes humanas de maneira, digamos, suportável), quando descobri, e quase não acreditei no que descobri: na pequena tela descortinava-se os letreiros iniciais do filme Saló, de Pier Paolo Pasolini, que tentei assistir no final dos anos 1970 no cine Guarani, em Salvador. Mas fracassara: diante da crueza das cenas, ficara de olhos bem fechados durante a projeção.
Precisava ver esse filme agora, algo me dizia – e vi. Nada de novo. Apenas o ser humano sem retoques. Sem hipocrisias. Difícil encarar as cenas explícitas de coprofagia e sadismo sem algum grau de náusea. Mas, queiramos ou não, estamos todos representados ali: eu, tu, ele, nós, vós, eles.
A bordo de dolorosa ressaca moral, tentei tornar essas imagens nada edificantes cada vez mais diáfanas e quis, também, celebrar o dia de outono espetacular no Rio de Janeiro. Fui caminhar no Parque do Flamengo, o nosso, digamos, jardim do Éden possível. Logo ao chegar, em seguida a simpaticíssimo golden retriever que me olhou com aquele olhar transcendente que só alguns cachorros têm, flagro homem que mija ao lado de frondosa árvore.
O homem que mija ao lado de frondosa arvora mija sem culpa alguma. Era como se apenas compusesse a bucólica paisagem do Parque do Flamengo. E, de fato, homens que mijam em frondosas árvores no Parque do Flamengo fazem tão parte da paisagem local quanto as alegres maritacas que não param de matraquear e os aviões que decolam e aterrissam no Aeroporto Santos Dumont bem ao lado.
Continuei. Vi outro mijão – mais um – e ainda mais outro. Parecia que apenas eu os via – e, provavelmente, apenas eu (com meu olhar abelhudo de cronista) os via. (Crianças brincavam. Cachorros latiam. Homens jogavam futebol. Mulheres ululavam. Vendedores urravam). Foi quando a iluminação se deu: por que encasquetar com homens que mijam em frondosas árvores do Parque do Flamengo? Eu mesmo me respondi: - Que maravilha se todos os problemas humanos se limitassem a homens que mijam em frondosas árvores do Parque do Flamengo!
Então me lembrei de história contada por amiga carioca de trinta e poucos anos: o primeiro pênis in natura que vira na vida fora o de homem que mijava em frondosa árvore do Parque do Flamengo nos idos dos 1980. Não ficara traumatizada. Ao contrário. Em certa tarde regada a cerveja na Cobal do Botafogo, segredou-me: - Era lugar paradisíaco, e o homem era tão bonito que essa é lembrança feliz que jamais esquecerei.
Pois é.
Email para o autor: rogerio_menezes@uol.com.br