A Estação das Letras publica quinzenalmente a coluna O Lobo no Ar, escrita pelo jornalista e escritor Rogério Menezes. O autor tem três romances publicados: Meu Nome é Gal (Codecri, 1984), Três Elefantes na Ópera (Record, 2001) e Um Náufrago que Ri (Record, 2009) (acesse o blog http://umnaufragoqueri.blogspot.com).
Rogério Menezes, depois de bem-sucedidas passagens por jornais e revistas de Salvador, São Paulo e Brasília, mora no Rio de Janeiro (mais exatamente em Botafogo) desde abril de 2008. Por dois anos e meio (entre julho de 2000 e dezembro de 2002) publicou crônica diária no Correio Braziliense. A partir desses textos publicou o livro A Solidão Vai Acabar Com Ela (Versal Editores, 2003). Neste espaço o autor nos oferecerá uma visão sempre muito particular do viver contemporâneo, das cidades e dos seus habitantes.
O LOBO NO AR
(crônicas insanas & insones de Rogério Menezes)
Alguém procura Sheila no meio da madrugada
Abri os olhos. Escuridão abissal. O telefone tocava ululantemente. Não tinha noção de onde estava. Nem de que horas eram. Talvez já estivesse amanhecido, e alguém ligasse, e a vida continuasse. Simples assim. Mas não parecia ser tão simples assim. O relógio de pulso registrava: 2h04m. Desconfiei (e não errara): era madrugada de 1 de junho. Percebi onde estava: casa de minha irmã, Ilha do Governador, Rio de Janeiro, Brasil, Terra.
O telefone continuava indócil. Alarmes varavam-me o cérebro: Perigo, perigo, perigo! Quem liga às duas da madrugada para dar boas notícias? Ninguém. Nin-guém! Ouvi lépido arrastar de passos. Minha irmã corria em direção ao telefone, que trinava cada vez mais ameaçador. Escutei: - Alô! Como? O quê? Sheila? Aqui não mora nenhuma Sheila, minha senhora. Passe bem!
Ligação errada. Acontece. Mas meu coração não desacelerou. Continuou descompassado. Não consegui controlar meu pensamento. Havia naquela madrugada alguém que procurava Sheila desesperadamente. Por que a procuraria? Acaso aquela senhora que discara o número errado tivera algum sonho premonitório com essa tal Sheila (no qual ela explodia num acidente aéreo, por exemplo) e queria lhe contar tudo nos mínimos detalhes? Desejava aquela senhora comunicar-lhe que amigo, parente, amante, morrera assassinado?
A insônia arrebatou-me: eu e Sheila; Sheila e eu; assassinatos; estupros; acidentes aéreos; explosões; más notícias. Por que diabos aquela senhora ligara exatamente para o número de telefone da casa de minha irmã e me jogara nessa abissal sucessão de sinapses aterradoras?
Afinal esqueci Sheila, e renasci de todas aquelas sinapses aterradoras: eram 7 horas da manhã e eu adentrava a barca que me levaria à Praça 15, no centro do Rio. Fazia friozinho besta de outono carioca, e esse adorável friozinho besta de outono carioca me fez crer que esqueceria Sheila para sempre. No meio da baía de Guanabara, ao passar sobre a ponte Rio-Niterói, neurônio 1 perguntou ao neurônio 2: - E Sheila? O neurônio 2 respondeu: - Que porra de Sheila, cara-pálida? Ou seja: o cheiro do mar e o murmúrio das ondas que batiam suavemente na lateral da barca me apascentaram.
Apascentaram-me tão esplendidamente que nem o mergulhar no vagão do metrô superlotado (no qual precisei parar de respirar por alguns segundos para consegui me interpor entre dois rotundos homens de terno preto e duas mulheres de bundas enormes) me tirou a paz. Lar doce lar: ‘estação Botafogo’, avisou impessoal, mas querida, voz feminina. Desci. Atravessei a Rua Mena Barreto. Mergulhei em todos os cheiros e sabores inebriantes de galeria que deságua em frente ao prédio onde moro.
Na porta de saída, ergui a cabeça: meu olhar se dirigiu para a tevê eternamente ligada. Era olhar acidental. Olhei por olhar. No ar aquela indefectível apresentadora superblondie, e supertonta, parecia abismar-se com alguma coisa. Ouvi palavras assim: tragédia; acidente aéreo; oceano Atlântico; vôo Rio-Paris; avião desaparecido. Então pensei – sem saber de onde surgira esse pensamento extemporâneo: - Deveria haver alguma Sheila a bordo desse voo, deveria haver alguma Sheila a bordo desse voo, deveria...
Abri de novo os olhos. Escuridão novamente abissal. Nenhum telefone tocava. O relógio de pulso registrava: 6h05m. Não tinha dúvidas sobre onde estava (apartamento 1001 de hotel próximo à esquina da Avenida Faria Lima com Juscelino Kubitschek, São Paulo) ou que dia era (sábado, 6 de junho). Em vez de lutar contra a insônia, e tentar dormir um pouco mais, fui até à janela. Fiz bem: contemplei o nascer do sol que se refletia espetacularmente nas janelas de vidro do prédio em frente. Não, não, caro leitor, não lembrei de Sheila (e, claro, não havia nenhuma Sheila entre as vítimas daquele avião sinistrado; não?).
Preferi lembrar de homem que, no início da noite anterior, aproveitava o sinal fechado do cruzamento da esquina e tentava vender buquês de rosas vermelhas aos motoristas apressados. Nos vinte minutos que o contemplei, em frenético ir e vir entre os automóveis, não conseguiu vender uma rosa vermelha sequer. Mas não desistia.
Email para o autor: rogerio_menezes@uol.com.br